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quarta-feira, 13 de junho de 2012

[CONTO] O Ovo de Ouro



O ovo DO DRAGÃO.
“Uma morte honrada vale mais que ouro”. Era uma frase popular entre os templários de Urbano II.
O sarraceno cuja cabeça acabava de ser separada de seu corpo por uma lâmina sanguinária provavelmente discordaria.
- IN NOMINE PATRE! – Gritou um homem, enquanto o pandemônio de sangue e poeira se seguia.
Poeira levantava a cada corpo tombado. A batalha, que não durava mais que alguns minutos, custava a vida da maioria dos guerreiros que dela participavam. Sem dúvida, menestréis de todo o mundo dariam os dedos de suas mãos para tê-la presenciado e poder narrá-la com todos os detalhes que lhe cabiam. Foram doze guerreiros santos, entre cavaleiros e soldados cruzados, ao encontro de pelo menos o triplo mais dez de infiéis.
No fim, restavam apenas cinco cruzados, quatro cavaleiros e um soldado, contra uns vinte sarracenos. E mesmo que fossem duzentos ou dois mil não faria diferença.
Pois aqueles guerreiros eram a fúria divina.
- Abaixa Nathaniel! – Berrou Lucas, o jovem soldado, aparando um golpe que se dirigia ao pescoço do amigo. Nathaniel se limitou a sorrir e matar o agressor.
- Não precisa me proteger menino! Mateus ou o Gordo, talvez. A mim, nunca! – Disse, antes de se atirar e matar o próximo inimigo.
Sangue e terra se misturavam no combate. Um rapaz, pouco mais velho que Lucas e tão esguio quanto ele, lutava com duas espadas curtas, uma em cada mão, e parecia acertar brechas invisíveis nas defesas dos inimigos. O outro, um homem gigantesco com um machado digno de si, não precisava de tais brechas. O balanço de sua arma, um bocado cruel de aço, era o bastante para eviscerar qualquer tolo que se opusesse a ele.
E mais que qualquer um deles, um homem de barba na altura do peito e olhos soturnos matava a todos ao seu alcance. Seu olhar soprava o frio da morte, e era a ultima coisa que seus oponentes enxergavam. Pelo menos dez tombaram apenas por sua espada.
Counes, o herói das cruzadas, fazia mais uma vez sua lenda crescer.
E assim, rapidamente a batalha terminou, com mortos, quase mortos e nenhum fugitivo. De pé, só aqueles cinco homens. Reagruparam-se saudando uns aos outros. Todos se conheciam de longa data e batalhas heróicas.
- Por fim, sucesso! – Declarou Mateus, com um sorriso petulante.
“Chama de sucesso perder metade de nossos homens? Tolice.” Retrucou Counes com severidade. Caminhou entre os mortos, rezando por cada companheiro que encontrava. Não disse a maioria dos nomes. Os rostos desfigurados não permitiam reconhecimentos. “Esta luta foi insensata. Que ganhamos com isso?”
“Além de sangue na espada? Um tesouro, claro. Tantos homens escoltando uma arca, sem dúvida deve ser algo valioso. Alguma bobagem pagã com ouro!” Disse Nathaniel chutando um cadáver. Counes se limitou a olhá-lo com repreensão. Havia sentido nas palavras de Nathaniel, mesmo com suas maneiras desonrosas.
- Sangue no meu machado já me satisfaz. Mas aceito o que vier. – Falou o Gordo, se sentando. Lógico, este não era seu nome, mas de tanto ser chamado assim, resolveu adotá-lo.
- E é certo se apropriar disto? Nada de bom virá do que desonra nosso Deus. – Perguntou Lucas com sinceridade. Em resposta, apenas um riso debochado de Mateus, que o acompanhou em direção à arca dizendo “Sua fé e honra são tocantes e inúteis, Lucas. Mas tudo bem. Eu fico com tua parte.”
A arca, ricamente adornada com prata e pedras preciosas, era coberta com seda da melhor qualidade. Os cinco se aproximaram sem medo, pois qualquer que fosse o perigo, ele cairia por suas espadas. Mesmo assim, Lucas ficou um passo mais distante do que os outros.
“Não gosto da sensação que ela me passa” disse.
“Pois ela só me passa a sensação de...” Começou a debochar Nathaniel, mas parou ao ver o que havia dentro da peça.
Um imenso ovo dourado refulgia aos olhos de todos. Mateus não resistiu e o tocou, apenas para se surpreender mais. A superfície se dobrou como apenas ouro puro de dobraria. A peça brilhava como apenas ouro puro brilharia. E nenhuma duvida restou.
Era um imenso ovo de ouro.

“Um ovo de dragão!” Sussurrou Nathaniel, assombrado.
“Quê?!” Sussurrou Lucas, como se o ovo pudesse ouvi-lo e saltar em sua garganta.
“Sim.” Disse Counes “Ouvi histórias. Sarracenos louvando uma imagem de ouro puro. Chamavam de ovo de dragão. Não imaginava que fosse à forma de um ovo. Que fosse... tão...”
“Lindo” Completou o Gordo, fascinado. Todos olharam espantados para ele. O Gordo admitir a beleza de algo que não fosse uma meretriz de bordel era impensável!
No entanto, a Lucas o que mais o assustava era o fato de intimamente concordar com ele.
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Puseram-se em marcha, os quatro cavaleiros mais pesados que o soldado Lucas. Fruto da prática forma que o Gordo havia encontrado de transportarem o ovo.
O debate transcorria por minutos sem haver acordo. Os cavalos haviam sido deixados para trás num terreno ameno pois a batalha havia ocorrido no meio de um vale pedregoso e irregular, a fim de anular a vantagem dos cavaleiros inimigos, e assim diminuir o problema da diferença de números entre os grupos. Portanto, deveriam arrumar alguma maneira de levar o tesouro que conseguiram. Para doze homens, seria uma tarefa corriqueira. No entanto, para quatro homens, contando com o fato que Lucas nada queria ter a ver com aquele Ovo de Dragão, seria bem mais dispendiosa, e os atrasaria muito.
“Deve haver batedores à frente, que retornarão com reforços. Não podemos nos atrasar muito.” Declarou Counes com firmeza “Temos que partir, já!”
“E como planeja levar o ovo, “senhor quase-comandante” Respondeu Nathaniel, provocando um silêncio constrangedor no grupo. O atraso no homem subir hierarquicamente na ordem dos templários era bem controvertido, e bastante evitado pelos seus homens. Ninguém sabia por que ele ainda permanecia como tenente, quando deveria comandar exércitos.
“Posso ser, como diz Nathaniel, o quase-comandante, mas ainda estou comandando você! Portanto, preste o devido respeito, antes que eu tenha que ajudá-lo” Os olhos de Counes se estreitaram, revelando o perigo. Nathaniel apenas manteve seu olhar desafiador. “Ainda não sei se deveríamos levar esta coisa, mas já que será deste jeito, creio que...” mas antes que terminasse, o machado do Gordo desceu como um raio, e partiu o ovo ao meio.
“Mas que diabos!” Gritou Mateus.
“Quatro pessoas, quatro partes, certo chefe?” Riu o gordo, divertido com a cena. Counes se permitiu um breve sorriso, e concordou. “Certeza que não quer soldado?” Completou o Gordo preparando o machado. Com a negativa silenciosa de Lucas, terminou de partir o ovo em quatro pedaços.
No fim, Mateus confidenciou aos outros que “O ouro deixa um homem mais esperto”
Caminharam um bom tempo, até chegar ao descampado dos cavalos. Lá esperavam achar o cavalariço que devia tomar conta das montarias. No entanto, só estavam os cavalos, mas nada do rapaz responsável.
“Diabos! Onde está aquele garoto?” Exclamou Mateus.
“Vermezinho!” Gritou o Gordo, sem receio de ser escutado por alguém inoportuno. Os inimigos ainda deveriam estar longe.
Counes e Nathaniel, no entanto, estavam em alerta. A ausência do rapaz poderia significar problemas. Até Lucas sentia o silêncio mais pesado do que deveria.
“Maldito garoto. Se minha égua tivesse fugido, eu iria arrancar o seu couro. Talvez ainda arranque! Para ele arranjar um pouco de juízo naquela maldita cabeça!” Declarou Mateus com seu jeito petulante, se dirigindo a égua para guardar seu saco com o pedaço de ouro guardado.
E foi isto que o salvou.
“MATEUS!” Gritou Lucas, correndo com espada em punho, quando viu o guerreiro cair. Uma lâmina arremetida contra ele apenas não lhe cortou a cabeça por o pedaço de ouro ter ficado no caminho. Um sarraceno apareceu por trás da égua, e correu contra o rapaz caído, que puxou desajeitadamente a espada e se defendeu como pôde. Não havia mais presunção em sua face.
Antes que Lucas o alcançasse, pelo menos oito sarracenos surgiram das árvores. Provavelmente eram os batedores, que haviam montado uma emboscada. Dois se lançaram contra ele, e as espadas dançaram. Foram pegos desprevenidos, e isto seria sua morte caso não lutassem bem. Counes e Nathaniel, a despeito da briga recente, lutavam com parceria e maestria. O Gordo se defendia como podia com seu machado. Era forte, mas não rápido. Seus ataques abriam brechas mortais, e o gigante não era tolo de dá-las de presente no momento. Lucas desviou a lâmina de um atacante e lhe abriu o pescoço, mas se desviou por centímetros do ataque inimigo. Enquanto isso, Mateus conseguiu de alguma maneira se levantar, e usava sua peça de ouro como escudo, lutando com apenas uma espada. Num momento de pausa da luta, largou a bolsa, e puxou sua outra lâmina. Logo dominou a luta contra os dois que tinha contra si. Num movimento belíssimo, desviou o ataque de um dos agressores, e lhe abriu o estômago. Tal era certa a morte do homem que nem se deu ao trabalho de lhe cortar a cabeça. No entanto, quando se virou, o outro agarrava sua bolsa. Mateus, urrando, se jogou contra o homem. Atracaram-se por um momento, até que o sarraceno se desvencilhou, agarrou a alça da bolsa e tentou se levantar. Mateus não permitiu. Largando uma espada e segurando o outro lado da bolsa, puxou o homem para baixo, e lhe cortou a mão, depois o braço, e por fim atacou a garganta. O homem caiu desabalado, com sangue saindo em profusão da garganta, e tudo que Mateus fez foi sorrir, segurando o saco com o pedaço de ouro.
“Nada feito amigo! Pois este ouro é...” e terminou a frase com um engasgo de sangue.
“NÃO!” Gritaram todos, em especial o Gordo, que em fúria trucidou seus dois oponentes com um movimento circular do machado.
O homem que não havia finalizado havia de alguma maneira feito o caminho até ele por trás, segurando as próprias vísceras, apenas para lhe estocar com sua espada. Aparentemente ficou satisfeito com isso, pois em seguida morreu.
Lucas finalizou seu segundo inimigo, e chegou por ultimo até Mateus. Nathaniel tentava em vão se aproximar, mas Mateus brandia a espada a esmo. Estava delirando.
“Não, NÃO! Ninguém me rouba! É meu! Meu! Vou gastar com meu amigo Gordo! Com mulheres! E bebida! E... e... eu não quero... morrer... não...”
O Gordo se aproximou, e com habilidade e graça desarmou o moribundo. Estava com lágrimas nos olhos. O rapaz era um graveto perto do homem, mas parecia que o gordo estava murchando junto com a vida de Mateus.
“Calma meu garoto. Calma. Vamos gastar sim. Em mulheres, vinho e delícias... pode relaxar... Esta tudo bem...”
Os olhos de Mateus se abrandaram com a voz do Gordo, e por fim parou de se debater. Por ultimo, disse: “É. No fim, tudo vai dar certo. Sempre dá conosco, não é... Gordo...?”
E se calou para sempre.
“Nem sempre” Respondeu o Gordo, com uma lágrima em sua face barbuda.
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Depois de enterrar o rapaz, o Gordo insistiu em levar a parte de Mateus. “Ele teria preferido gastar” disse, e então ficou em silêncio. Ninguém se opôs.
Lucas, em um gesto que esperou ser solidário, levou a parte do Gordo. Depois do acontecido, gostava menos ainda daquele ouro. Parecia errado o terem com eles. Mas na dor do gigante, se calou.
Os cavalos também foram perdidos. Na luta, alguns foram soltos e fugiram, alguns foram mortos. Os que restaram estavam feridos, e tiveram de se sacrificados. Agora, teriam que passar em terreno inimigo a pé.
“Há um caminho pelas montanhas. Mais curto, e impossível de seguir a cavalo. Perfeito para nós.” Disse Nathaniel. Os outros concordaram em silêncio. De todos, ele era o que melhor conhecia aquelas bandas. E, afinal, era isto ou a morte na planície.
Acamparam no sopé da montanha à noite, e seguiram pela manhã. No meio da trilha, avistaram cavaleiros na planície que se estendia ao lado da montanha. Portanto, também estavam sendo vistos.
“Vão demorar a vir com os cavalos. Mas virão. Vamos apressar o passo.” Disse Counes. E assim o fizeram, embora não fosse fácil. Além do peso extra do ouro, as armaduras que vestiam não eram próprias para uso em viagens a pé, mas não podiam se dar ao luxo de retirá-las, com a possibilidade de batalha no ar.
Chegaram a um ponto bem estreito. De um lado, havia a parede da montanha. Do outro, uma queda para a morte. No máximo um passaria por vez.
“Na frente Nathaniel. Você é o guia” Ordenou Counes. Nathaniel se limitou a responder “Sim, meu capitão” e não perdeu mais tempo rebatendo. A situação era tensa o suficiente. Seguindo atrás de Nathaniel seguiu Lucas, e então o Gordo, e por último Counes, na retaguarda.
O caminho seguia se estreitando cada vez mais. Por vezes tiveram que seguir colados na parede, rezando para que não caíssem. Quem mais tinha problemas nesta travessia era o Gordo. O caminho exigia mais concentração e graça nos passos do que era capaz de ter no momento. O próprio Nathaniel quase caiu pelo menos duas vezes.
Perto do outro lado do caminho, Counes, que seguia na retaguarda, os alertou.
“Fomos vistos! Virão para cá e seremos alvos fáceis! MOVAM-SE!”
Lucas não conseguia olhar para trás de maneira que pudesse ver os perseguidores, mas o soar de um chifre sendo tocado, e a urgência na voz de Counes lhe deram razões para crer que estavam perto. Nathaniel apertou o passo como pode, com Lucas, o Gordo e Counes em seu encalço.
E, na pressa, não viu acontecer.
“Gordo!” ouviu Counes gritar.
Virou-se como pode, e viu o Gordo segurando com apenas uma das mãos na borda da estrada que dava para o precipício. Counes tentava puxá-lo, mas o homem era muito pesado, e a posição em que estavam dificultava qualquer esforço. Abandonando a própria segurança, abaixou-se da maneira que pode para puxar o gigante. O Gordo, mesmo em vias de cair num precipício, não berrou, pois isto poderia revelar a posição dos guerreiros para os inimigos, e se tornariam alvos fáceis para as flechas sarracenas.
“Venha Gordo! Dê a mão!” Disse o mais baixo que pode Lucas, para que o Gordo ouvisse. À frente, Nathaniel não havia se virado ainda, e estava bem mais a frente. Aparentemente não ouvira Counes, o que era compreensível. Havia muito vento, e mesmo Lucas só ouviu por estar ao lado deles.
O Gordo tentou, mas o outro braço pesava por conta do ouro, pendurado nele. O esforço para se segurar num braço, mesmo com o auxilio de Counes, que era um homem robusto, era sobrehumano. “Largue esta porcaria!” Explodiu Lucas, não se importando mais com o silêncio. “Você já tem seu ouro! Gaste por você e Mateus!”
Aparentemente foi a coisa errada a se dizer. O Gordo apenas balançou teimosamente a cabeça. No entanto, balançou a bolsa que continha o ouro como um pendulo, e a jogou para lucas, mas ainda a segurando pela alça. Lucas entendeu repentinamente a idéia, e segurou a bolsa. Agora poderia ajudar Counes a puxá-lo para cima.
As veias de Counes estavam estourando, enquanto ele fazia se esforço. Lucas segurou a bolsa firme, e acenou para Gordo com a cabeça. Eeste se sentiu preparado, respirou fundo, e deu impulso para cima.
E então, a alça da bolsa rasgou.
Counes fraquejou.
E o Gordo caiu e sumiu no escuro, com um olhar surpreso na face, mas ainda sem emitir nenhum som.
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Desceram a montanha mais rápido do que poderiam supor que o fariam. A fúria rugia na face de Counes.
“VOCÊ NOS ABANDONOU!” gritou para Nathaniel. Já haviam despistado os perseguidores, mas gritar alí ainda era imprudência. “NOS DEIXOU PARA MORRER! DEIXOU O GORDO PARA CAIR!”
“Já disse a vocês que não o ouvi! E mesmo que tivesse, pouco ou nada podia fazer! Lucas é que estava atrás de mim!” Nathaniel, sempre calmo e frio, estava pálido e acabado. A perda do Gordo o fez sentir. A todos, afinal. Aquele homem já sobrevivera a provações que fariam todos os três morrer chamando por suas mães. E ali, naquela montanha, morreu, vitima de uma escorregadela.
“Maldito! Não jogue a culpa em Lucas! Ele pelo menos tentou, tentou com todas as forças, enquanto você...”
“Parem!” Gritou Lucas, mandando a precaução ao inferno. Não aceitaria que eles se matassem ali. “Parem com isso! Esta briga é estúpida! Um desrespeito a memória de Mateus e o Gordo. Temos que sair daqui, desta porcaria de inferno!”
Counes retesou todo o seu corpo, e deu alguns passos para trás. Lucas viu sua mão na espada, e sentiu medo do que aconteceria. No entanto, ele apenas acenou, e seguiu em frente, só. Nathaniel ainda se virou para ele, e disse.
“Você dá muito valor às honras de Mateus e o Gordo, Lucas. Mas é sensato de sua parte. Temos muita gente querendo nos matar. Melhor não ajudá-los.” E seguiu atrás de Counes. A Lucas, só restou seguir com aqueles dois guerreiros em pé de guerra.
Eles, e o maldito ouro que ainda levavam com eles.
Lucas seguia com o pedaço de Mateus. Counes, com o próprio. Declarou que Nathaniel levasse o do Gordo, para lembrar. Nathaniel nada falou. Acamparam por mais duas noites, antes de chegar ao rio que procuravam.
“Do outro lado, há um castelo a pelo menos dois dias de viagem. Estamos perto.” Disse Counes.
“Mas afinal de contas, você não cansa de ressaltar o óbvio, não é?” Provocou Nathaniel
“Cale-se Nathaniel, pois estou farto de você!” Retrucou Counes.
Lucas interveio “Acalmem-se vocês! Já estamos chegando, e logo poderemos descans...”
‘CALE-SE FEDELHO!”Gritou Counes. Lucas nunca o vira assim. A mão não saia de perto da espada.
“Ora! Se não vejo aqui a verdadeira face do quase-comandante Counes! Há quanto tempo não vejo este rosto, este tom de voz... Esta vontade de ser obedecido! Se entristece Counes, de ver que nem um fedelho que nada mais é que um soldado não te obedeça mais que eu? De sentir que nunca vai ser um oficial de patente maior, enquanto eu poderia ser quando quisesse? Te doi saber disse, Counes? HEIN!”
Counes respondeu apenas com o desembainhar de sua espada, tão rápido que Lucas mal viu. E mesmo assim, ela foi bloqueada pela de Nathaniel. Trocaram golpes rápidos, e a única coisa que Lucas pode fazer foi puxar sua espada, e arremeter contra as duas outras, que estavam em pleno choque. Bateu nas espadas, e foi para o meio dos dois.
“PELO AMOR DE DEUS! PAREM!” gritou. Os dois guerreiros olharam-se assustados, depois para o soldado que tentava levá-los de volta a razão. Ambos baixaram a espada. Counes se foi primeiro. Nathaniel ficou um pouco mais.
“Desculpe garoto. Obrigado.” Disse Nathaniel, parecendo envergonhado.
Lucas não soube o que dizer. Nunca um cavaleiro templário havia pedido desculpas a ele antes, fosse qual fosse o disparate que fizesse. Resmungou um “Hmm”, e ficou por isso mesmo. Mas antes que Nathaniel partisse, ele perguntou.
“Que quis dizer sobre poder ser de patente maior quando quisesse, enquanto Counes não poderia?”
“Ahn, deixe isto garoto.”
“Quero saber. Como assim? Que significava isso? Quero dizer, o senhor é muito bom, mas Counes tem mais tempo na ordem!”
Nathaniel o observou por alguns instantes, e com um sorriso estranho no rosto lhe respondeu: “Você é inocente, bravo, e ótimo lutador garoto. Têm fé. Legítima. Mais do que pode ser dita de mim, por exemplo. Não é um santo. É um verdadeiro cavaleiro templário, ou assim deveria ser. Por que não é?”
Nunca lhe perguntaram isto antes. Lucas apenas balbuciou “Templários são aqueles escolhidos senhor. Quero dizer, é...”
“Garoto, você não é um cavaleiro, pois não é nobre. Não deveria importar, mas importa. Dinheiro. Dinheiro é o que faz um templário. E disto, minha família tem muito. Enquanto Counes não têm. Este ouro, ele pode não gostar tanto quanto você. Mas precisa, pois está na miséria. Apenas têm o título de cavaleiro para se sustentar. Este pedaço de ouro dele, apenas pagará suas dívidas, embora as pague muito bem, tenho certeza.”
E dito isso, Nathaniel partiu, deixando Lucas com seus pensamentos.
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Acamparam a última noite antes de atravessar o rio. Para passar todas as coisas, foi amarrada uma corda em duas árvores, uma em cada margem. Atravessariam de manhã. Ficou decidido que atravessados, cada um seguiria seu caminho. Seria melhor desta maneira.
Lucas tentou de todas as maneiras dormir, mas não conseguiu. Estava inquieto. Aquela noite lhe trouxera pensamentos estranhos.
Como aquele sarraceno que conseguiu chegar por trás de Mateus sem ninguém poder impedi-lo. Como o Gordo que escorregou para a morte na montanha. Como de repente os cinco templários se tornaram três, embora só dois fossem usufruir do tesouro.
Decidiu levantar e caminhar. Fez isso durante um par de horas, andando pela mata siliar quando, na borda da mata, viu cavaleiros ao longe, com tochas. Os sarracenos! Aproximavam-se! Perto demais, perto demais! Teriam que apostar atravessar o rio a noite!
Correu para avisar os companheiros, já pronto na corrida, quando, ao chegar no ponto onde descansavam, viu Counes em cima de Nathaniel. E viu a espada de Counes fincada no ventre do outro.
E tudo se encaixou de maneira macabra.
Counes se virou, e viu Lucas. Pareceu surpreso. Ao olhar o lugar onde dormia antes, Lucas compreendeu por que. Estava todo com buracos de espada.
“Ele me mataria” Não teve dúvidas.
“Lucas! Onde esteve! Você não sabe o que aconteceu! Venha cá e...”
“Você matou a todos.” Disse.
Counes o olhou com aqueles olhos gélidos. Começou a caminhar em direção a ele.
“Deixou que o sarraceno matasse Mateus” Continuou Lucas.
“Aconteceria cedo ou tarde.” Disse sem emoção.
“Deve ter empurrado o gordo para o precipício!”
“Só o enviei para junto de seu querido amigo!” Continuou Counes.
“Matou Nathaniel enquanto estava dormindo!” Lucas falou entredentes.
“Ah, não. Eu o deixei acordar. Para ver!” E aí um sorriso frio surgiu em sua boca.
E então lutaram. Espada contra espada, aço refulgindo, enquanto uma chuva forte começou a cair. No entanto a experiência de Counes pesou. Logo Lucas estava com sérios ferimentos, enquanto Counes seguia ileso.
“Se renda rapaz. Para ter uma morte rápida.”
“Para que tudo isso. Duas peças dessas lhe pagaria as dívidas e lhe deixaria rico! Não desejava nenhuma para mim!”
Os olhos de Counes se estreitaram “Sim. Ele deve ter dito a você. Pois bem Lucas. Ser rico é bom. Mas ser três vezes mais? Melhor, não? Eu acho, pelo menos!”
Lucas mal acreditava no que ouvia. Um dia chegou a venerar aquele homem!
“Ouve o que diz? E seu juramento!”
“Com o que vou ganhar, compro meu juramento de volta.” Disse Counes com um sorriso. “E faço com minha alma o que quiser de novo. Afinal, estou livre de todos os meu pecados, não é?”
“Para sempre, seu maldito!” Disse uma voz atrás de Counes. E a espada de Nathaniel trespassou Counes. Nathaniel caiu com o traidor ao seu lado.
Lucas correu até ele como pode. Nathaniel apenas teve forças para lhe dizer uma frase: “Você estava certo Lucas. Este ouro... Não presta...”
E os dois estavam mortos. Não havia tempo para mais nada além de fugir. Lucas pegou seus pertences, e preparou-se para atravessar o rio, quando olhou para o ouro. Aquele maldito ouro, que custou a vida de todos. Tanto sacrifício só por cobiça. Se fosse por ele...
E então, Lucas pegou as quatro partes do Ovo do Dragão.
“Deixe isto, e vá!” Dizia uma parte de sua mente
“Você não usará para si! Dará para os pobres!” Dizia outra, numa voz mais obscura.
“Você não precisa disso! Nunca precisou!” Continuou a outra voz, mais fraca.
“Você pode ajudar mais gente! Parar de lutar! Viver e ter uma família.” Disse a voz obscura mais forte.
“Isto não te fará feliz!” Tentou uma ultima vez a primeira voz, desaparecendo, enquanto Lucas já chegava no rio.
“Isto realizará teus sonhos! Será um homem realizado!” A voz obscura era dominante, Lucas já chegava perto da metade do rio. A correnteza estava muito forte!
“Você não precisa de...” a primeira voz...
“Tudo o que você precisa é de...” a segunda voz...
“Ouro” Disse Lucas, antes da corda se partir com o seu peso e o do ovo do dragão, e ele ser tragado para o fundo do rio, com aquele tesouro assassino.
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Cinco dias mais tarde, uma criatura dourada emergiu de um rio muitos quilômetros acima. Era um pequenino dragão dourado, do tamanho de um cão grande. Onde ele emergiu, estava um homem com vestes finas e barba pontuda.
“Onde esteve Aurum?”
“Passeando Mammon. Vendo o mundo. Sendo venerado.”
“E matando?” Perguntou Mammom.
“Aurum nunca mata. Os humanos é que matam por estranhos motivos”
E numa gargalhada compartilhada, os dois demônios sumiram.

por P.A. Teixeira