“Uma morte honrada
vale mais que ouro”. Era uma frase popular entre os templários de Urbano II.
O sarraceno cuja
cabeça acabava de ser separada de seu corpo por uma lâmina sanguinária
provavelmente discordaria.
- IN NOMINE PATRE! –
Gritou um homem, enquanto o pandemônio de sangue e poeira se seguia.
Poeira levantava a
cada corpo tombado. A batalha, que não durava mais que alguns minutos, custava
a vida da maioria dos guerreiros que dela participavam. Sem dúvida, menestréis
de todo o mundo dariam os dedos de suas mãos para tê-la presenciado e poder
narrá-la com todos os detalhes que lhe cabiam. Foram doze guerreiros santos,
entre cavaleiros e soldados cruzados, ao encontro de pelo menos o triplo mais
dez de infiéis.
No fim, restavam
apenas cinco cruzados, quatro cavaleiros e um soldado, contra uns vinte
sarracenos. E mesmo que fossem duzentos ou dois mil não faria diferença.
Pois aqueles
guerreiros eram a fúria divina.
- Abaixa Nathaniel! –
Berrou Lucas, o jovem soldado, aparando um golpe que se dirigia ao pescoço do
amigo. Nathaniel se limitou a sorrir e matar o agressor.
- Não precisa me
proteger menino! Mateus ou o Gordo, talvez. A mim, nunca! – Disse, antes de se
atirar e matar o próximo inimigo.
Sangue e terra se
misturavam no combate. Um rapaz, pouco mais velho que Lucas e tão esguio quanto
ele, lutava com duas espadas curtas, uma em cada mão, e parecia acertar brechas
invisíveis nas defesas dos inimigos. O outro, um homem gigantesco com um
machado digno de si, não precisava de tais brechas. O balanço de sua arma, um
bocado cruel de aço, era o bastante para eviscerar qualquer tolo que se
opusesse a ele.
E mais que qualquer
um deles, um homem de barba na altura do peito e olhos soturnos matava a todos
ao seu alcance. Seu olhar soprava o frio da morte, e era a ultima coisa que
seus oponentes enxergavam. Pelo menos dez tombaram apenas por sua espada.
Counes, o herói das
cruzadas, fazia mais uma vez sua lenda crescer.
E assim, rapidamente
a batalha terminou, com mortos, quase mortos e nenhum fugitivo. De pé, só
aqueles cinco homens. Reagruparam-se saudando uns aos outros. Todos se
conheciam de longa data e batalhas heróicas.
- Por fim, sucesso! –
Declarou Mateus, com um sorriso petulante.
“Chama de sucesso perder
metade de nossos homens? Tolice.” Retrucou Counes com severidade. Caminhou
entre os mortos, rezando por cada companheiro que encontrava. Não disse a
maioria dos nomes. Os rostos desfigurados não permitiam reconhecimentos. “Esta
luta foi insensata. Que ganhamos com isso?”
“Além de sangue na espada?
Um tesouro, claro. Tantos homens escoltando uma arca, sem dúvida deve ser algo
valioso. Alguma bobagem pagã com ouro!” Disse Nathaniel chutando um cadáver.
Counes se limitou a olhá-lo com repreensão. Havia sentido nas palavras de
Nathaniel, mesmo com suas maneiras desonrosas.
- Sangue no meu
machado já me satisfaz. Mas aceito o que vier. – Falou o Gordo, se sentando.
Lógico, este não era seu nome, mas de tanto ser chamado assim, resolveu
adotá-lo.
- E é certo se
apropriar disto? Nada de bom virá do que desonra nosso Deus. – Perguntou Lucas
com sinceridade. Em resposta, apenas um riso debochado de Mateus, que o
acompanhou em direção à arca dizendo “Sua fé e honra são tocantes e inúteis,
Lucas. Mas tudo bem. Eu fico com tua parte.”
A arca, ricamente adornada
com prata e pedras preciosas, era coberta com seda da melhor qualidade. Os
cinco se aproximaram sem medo, pois qualquer que fosse o perigo, ele cairia por
suas espadas. Mesmo assim, Lucas ficou um passo mais distante do que os outros.
“Não gosto da sensação
que ela me passa” disse.
“Pois ela só me passa
a sensação de...” Começou a debochar Nathaniel, mas parou ao ver o que havia
dentro da peça.
Um imenso ovo dourado
refulgia aos olhos de todos. Mateus não resistiu e o tocou, apenas para se
surpreender mais. A superfície se dobrou como apenas ouro puro de dobraria. A
peça brilhava como apenas ouro puro brilharia. E nenhuma duvida restou.
Era um imenso ovo de
ouro.
“Um ovo de dragão!”
Sussurrou Nathaniel, assombrado.
“Quê?!” Sussurrou
Lucas, como se o ovo pudesse ouvi-lo e saltar em sua garganta.
“Sim.” Disse Counes “Ouvi
histórias. Sarracenos louvando uma imagem de ouro puro. Chamavam de ovo de
dragão. Não imaginava que fosse à forma de um ovo. Que fosse... tão...”
“Lindo” Completou o
Gordo, fascinado. Todos olharam espantados para ele. O Gordo admitir a beleza
de algo que não fosse uma meretriz de bordel era impensável!
No entanto, a Lucas o
que mais o assustava era o fato de intimamente concordar com ele.
++++
Puseram-se em marcha,
os quatro cavaleiros mais pesados que o soldado Lucas. Fruto da prática forma
que o Gordo havia encontrado de transportarem o ovo.
O debate transcorria
por minutos sem haver acordo. Os cavalos haviam sido deixados para trás num
terreno ameno pois a batalha havia ocorrido no meio de um vale pedregoso e
irregular, a fim de anular a vantagem dos cavaleiros inimigos, e assim diminuir
o problema da diferença de números entre os grupos. Portanto, deveriam arrumar
alguma maneira de levar o tesouro que conseguiram. Para doze homens, seria uma
tarefa corriqueira. No entanto, para quatro homens, contando com o fato que
Lucas nada queria ter a ver com aquele Ovo de Dragão, seria bem mais
dispendiosa, e os atrasaria muito.
“Deve haver batedores
à frente, que retornarão com reforços. Não podemos nos atrasar muito.” Declarou
Counes com firmeza “Temos que partir, já!”
“E como planeja levar
o ovo, “senhor quase-comandante”
Respondeu Nathaniel, provocando um silêncio constrangedor no grupo. O atraso no
homem subir hierarquicamente na ordem dos templários era bem controvertido, e
bastante evitado pelos seus homens. Ninguém sabia por que ele ainda permanecia
como tenente, quando deveria comandar exércitos.
“Posso ser, como diz
Nathaniel, o quase-comandante, mas
ainda estou comandando você!
Portanto, preste o devido respeito, antes que eu tenha que ajudá-lo” Os olhos
de Counes se estreitaram, revelando o perigo. Nathaniel apenas manteve seu
olhar desafiador. “Ainda não sei se deveríamos levar esta coisa, mas já que será deste jeito, creio que...” mas antes que
terminasse, o machado do Gordo desceu como um raio, e partiu o ovo ao meio.
“Mas que diabos!”
Gritou Mateus.
“Quatro pessoas,
quatro partes, certo chefe?” Riu o gordo, divertido com a cena. Counes se
permitiu um breve sorriso, e concordou. “Certeza que não quer soldado?”
Completou o Gordo preparando o machado. Com a negativa silenciosa de Lucas,
terminou de partir o ovo em quatro pedaços.
No fim, Mateus
confidenciou aos outros que “O ouro deixa um homem mais esperto”
Caminharam um bom
tempo, até chegar ao descampado dos cavalos. Lá esperavam achar o cavalariço
que devia tomar conta das montarias. No entanto, só estavam os cavalos, mas
nada do rapaz responsável.
“Diabos! Onde está
aquele garoto?” Exclamou Mateus.
“Vermezinho!” Gritou
o Gordo, sem receio de ser escutado por alguém inoportuno. Os inimigos ainda
deveriam estar longe.
Counes e Nathaniel,
no entanto, estavam em
alerta. A ausência do rapaz poderia significar problemas. Até
Lucas sentia o silêncio mais pesado do que deveria.
“Maldito garoto. Se
minha égua tivesse fugido, eu iria arrancar o seu couro. Talvez ainda arranque!
Para ele arranjar um pouco de juízo naquela maldita cabeça!” Declarou Mateus
com seu jeito petulante, se dirigindo a égua para guardar seu saco com o pedaço
de ouro guardado.
E foi isto que o
salvou.
“MATEUS!” Gritou
Lucas, correndo com espada em punho, quando viu o guerreiro cair. Uma lâmina
arremetida contra ele apenas não lhe cortou a cabeça por o pedaço de ouro ter
ficado no caminho. Um sarraceno apareceu por trás da égua, e correu contra o
rapaz caído, que puxou desajeitadamente a espada e se defendeu como pôde. Não
havia mais presunção em sua face.
Antes que Lucas o
alcançasse, pelo menos oito sarracenos surgiram das árvores. Provavelmente eram
os batedores, que haviam montado uma emboscada. Dois se lançaram contra ele, e
as espadas dançaram. Foram pegos desprevenidos, e isto seria sua morte caso não
lutassem bem. Counes e Nathaniel, a despeito da briga recente, lutavam com
parceria e maestria. O Gordo se defendia como podia com seu machado. Era forte,
mas não rápido. Seus ataques abriam brechas mortais, e o gigante não era tolo
de dá-las de presente no momento. Lucas desviou a lâmina de um atacante e lhe
abriu o pescoço, mas se desviou por centímetros do ataque inimigo. Enquanto
isso, Mateus conseguiu de alguma maneira se levantar, e usava sua peça de ouro
como escudo, lutando com apenas uma espada. Num momento de pausa da luta,
largou a bolsa, e puxou sua outra lâmina. Logo dominou a luta contra os dois
que tinha contra si. Num movimento belíssimo, desviou o ataque de um dos
agressores, e lhe abriu o estômago. Tal era certa a morte do homem que nem se
deu ao trabalho de lhe cortar a cabeça. No entanto, quando se virou, o outro
agarrava sua bolsa. Mateus, urrando, se jogou contra o homem. Atracaram-se por
um momento, até que o sarraceno se desvencilhou, agarrou a alça da bolsa e
tentou se levantar. Mateus não permitiu. Largando uma espada e segurando o
outro lado da bolsa, puxou o homem para baixo, e lhe cortou a mão, depois o
braço, e por fim atacou a garganta. O homem caiu desabalado, com sangue saindo
em profusão da garganta, e tudo que Mateus fez foi sorrir, segurando o saco com
o pedaço de ouro.
“Nada feito amigo!
Pois este ouro é...” e terminou a frase com um engasgo de sangue.
“NÃO!” Gritaram
todos, em especial o Gordo, que em fúria trucidou seus dois oponentes com um
movimento circular do machado.
O homem que não havia
finalizado havia de alguma maneira feito o caminho até ele por trás, segurando
as próprias vísceras, apenas para lhe estocar com sua espada. Aparentemente
ficou satisfeito com isso, pois em seguida morreu.
Lucas finalizou seu
segundo inimigo, e chegou por ultimo até Mateus. Nathaniel tentava em vão se
aproximar, mas Mateus brandia a espada a esmo. Estava delirando.
“Não, NÃO! Ninguém me
rouba! É meu! Meu! Vou gastar com meu amigo Gordo! Com mulheres! E bebida! E...
e... eu não quero... morrer... não...”
O Gordo se aproximou,
e com habilidade e graça desarmou o moribundo. Estava com lágrimas nos olhos. O
rapaz era um graveto perto do homem, mas parecia que o gordo estava murchando
junto com a vida de Mateus.
“Calma meu garoto.
Calma. Vamos gastar sim. Em mulheres, vinho e delícias... pode relaxar... Esta
tudo bem...”
Os olhos de Mateus se
abrandaram com a voz do Gordo, e por fim parou de se debater. Por ultimo,
disse: “É. No fim, tudo vai dar certo. Sempre dá conosco, não é... Gordo...?”
E se calou para
sempre.
“Nem sempre”
Respondeu o Gordo, com uma lágrima em sua face barbuda.
++++
Depois de enterrar o
rapaz, o Gordo insistiu em levar a parte de Mateus. “Ele teria preferido
gastar” disse, e então ficou em silêncio. Ninguém se opôs.
Lucas, em um gesto
que esperou ser solidário, levou a parte do Gordo. Depois do acontecido,
gostava menos ainda daquele ouro. Parecia errado o terem com eles. Mas na dor
do gigante, se calou.
Os cavalos também
foram perdidos. Na luta, alguns foram soltos e fugiram, alguns foram mortos. Os
que restaram estavam feridos, e tiveram de se sacrificados. Agora, teriam que
passar em terreno inimigo a pé.
“Há um caminho pelas
montanhas. Mais curto, e impossível de seguir a cavalo. Perfeito para nós.”
Disse Nathaniel. Os outros concordaram em silêncio. De todos,
ele era o que melhor conhecia aquelas bandas. E, afinal, era isto ou a morte na
planície.
Acamparam no sopé da
montanha à noite, e seguiram pela manhã. No meio da trilha, avistaram
cavaleiros na planície que se estendia ao lado da montanha. Portanto, também
estavam sendo vistos.
“Vão demorar a vir
com os cavalos. Mas virão. Vamos apressar o passo.” Disse Counes. E assim o
fizeram, embora não fosse fácil. Além do peso extra do ouro, as armaduras que
vestiam não eram próprias para uso em viagens a pé, mas não podiam se dar ao
luxo de retirá-las, com a possibilidade de batalha no ar.
Chegaram a um ponto
bem estreito. De um lado, havia a parede da montanha. Do outro, uma queda para
a morte. No máximo um passaria por vez.
“Na frente Nathaniel.
Você é o guia” Ordenou Counes. Nathaniel se limitou a responder “Sim, meu capitão” e não perdeu mais tempo
rebatendo. A situação era tensa o suficiente. Seguindo atrás de Nathaniel
seguiu Lucas, e então o Gordo, e por último Counes, na retaguarda.
O caminho seguia se
estreitando cada vez mais. Por vezes tiveram que seguir colados na parede,
rezando para que não caíssem. Quem mais tinha problemas nesta travessia era o
Gordo. O caminho exigia mais concentração e graça nos passos do que era capaz
de ter no momento. O próprio Nathaniel quase caiu pelo menos duas vezes.
Perto do outro lado
do caminho, Counes, que seguia na retaguarda, os alertou.
“Fomos vistos! Virão
para cá e seremos alvos fáceis! MOVAM-SE!”
Lucas não conseguia
olhar para trás de maneira que pudesse ver os perseguidores, mas o soar de um
chifre sendo tocado, e a urgência na voz de Counes lhe deram razões para crer
que estavam perto. Nathaniel apertou o passo como pode, com Lucas, o Gordo e
Counes em seu encalço.
E, na pressa, não viu
acontecer.
“Gordo!” ouviu Counes
gritar.
Virou-se como pode, e
viu o Gordo segurando com apenas uma das mãos na borda da estrada que dava para
o precipício. Counes tentava puxá-lo, mas o homem era muito pesado, e a posição
em que estavam dificultava qualquer esforço. Abandonando a própria segurança,
abaixou-se da maneira que pode para puxar o gigante. O Gordo, mesmo em vias de
cair num precipício, não berrou, pois isto poderia revelar a posição dos
guerreiros para os inimigos, e se tornariam alvos fáceis para as flechas
sarracenas.
“Venha Gordo! Dê a
mão!” Disse o mais baixo que pode Lucas, para que o Gordo ouvisse. À frente,
Nathaniel não havia se virado ainda, e estava bem mais a frente. Aparentemente
não ouvira Counes, o que era compreensível. Havia muito vento, e mesmo Lucas só
ouviu por estar ao lado deles.
O Gordo tentou, mas o
outro braço pesava por conta do ouro, pendurado nele. O esforço para se segurar
num braço, mesmo com o auxilio de Counes, que era um homem robusto, era
sobrehumano. “Largue esta porcaria!” Explodiu Lucas, não se importando mais com
o silêncio. “Você já tem seu ouro! Gaste por você e Mateus!”
Aparentemente foi a
coisa errada a se dizer. O Gordo apenas balançou teimosamente a cabeça. No
entanto, balançou a bolsa que continha o ouro como um pendulo, e a jogou para
lucas, mas ainda a segurando pela alça. Lucas entendeu repentinamente a idéia,
e segurou a bolsa. Agora poderia ajudar Counes a puxá-lo para cima.
As veias de Counes
estavam estourando, enquanto ele fazia se esforço. Lucas segurou a bolsa firme,
e acenou para Gordo com a cabeça. Eeste se sentiu preparado, respirou fundo, e
deu impulso para cima.
E então, a alça da
bolsa rasgou.
Counes fraquejou.
E o Gordo caiu e
sumiu no escuro, com um olhar surpreso na face, mas ainda sem emitir nenhum
som.
++++
Desceram a montanha
mais rápido do que poderiam supor que o fariam. A fúria rugia na face de
Counes.
“VOCÊ NOS ABANDONOU!”
gritou para Nathaniel. Já haviam despistado os perseguidores, mas gritar alí
ainda era imprudência. “NOS DEIXOU PARA MORRER! DEIXOU O GORDO PARA CAIR!”
“Já disse a vocês que
não o ouvi! E mesmo que tivesse, pouco ou nada podia fazer! Lucas é que estava
atrás de mim!” Nathaniel, sempre calmo e frio, estava pálido e acabado. A perda
do Gordo o fez sentir. A todos, afinal. Aquele homem já sobrevivera a provações
que fariam todos os três morrer chamando por suas mães. E ali, naquela
montanha, morreu, vitima de uma escorregadela.
“Maldito! Não jogue a
culpa em Lucas! Ele pelo menos tentou, tentou com todas as forças, enquanto
você...”
“Parem!” Gritou
Lucas, mandando a precaução ao inferno. Não aceitaria que eles se matassem ali.
“Parem com isso! Esta briga é estúpida! Um desrespeito a memória de Mateus e o
Gordo. Temos que sair daqui, desta porcaria de inferno!”
Counes retesou todo o
seu corpo, e deu alguns passos para trás. Lucas viu sua mão na espada, e sentiu
medo do que aconteceria. No entanto, ele apenas acenou, e seguiu em frente, só.
Nathaniel ainda se virou para ele, e disse.
“Você dá muito valor
às honras de Mateus e o Gordo, Lucas. Mas é sensato de sua parte. Temos muita
gente querendo nos matar. Melhor não ajudá-los.” E seguiu atrás de Counes. A
Lucas, só restou seguir com aqueles dois guerreiros em pé de guerra.
Eles, e o maldito
ouro que ainda levavam com eles.
Lucas seguia com o
pedaço de Mateus. Counes, com o próprio. Declarou que Nathaniel levasse o do
Gordo, para lembrar. Nathaniel nada falou. Acamparam por mais duas noites,
antes de chegar ao rio que procuravam.
“Do outro lado, há um
castelo a pelo menos dois dias de viagem. Estamos perto.” Disse Counes.
“Mas afinal de
contas, você não cansa de ressaltar o óbvio, não é?” Provocou Nathaniel
“Cale-se Nathaniel,
pois estou farto de você!” Retrucou Counes.
Lucas interveio
“Acalmem-se vocês! Já estamos chegando, e logo poderemos descans...”
‘CALE-SE
FEDELHO!”Gritou Counes. Lucas nunca o vira assim. A mão não saia de perto da
espada.
“Ora! Se não vejo
aqui a verdadeira face do quase-comandante
Counes! Há quanto tempo não vejo este rosto, este tom de voz... Esta vontade de
ser obedecido! Se entristece Counes,
de ver que nem um fedelho que nada mais é que um soldado não te obedeça mais
que eu? De sentir que nunca vai ser um oficial de patente maior, enquanto eu
poderia ser quando quisesse? Te doi saber disse, Counes? HEIN!”
Counes respondeu
apenas com o desembainhar de sua espada, tão rápido que Lucas mal viu. E mesmo
assim, ela foi bloqueada pela de Nathaniel. Trocaram golpes rápidos, e a única
coisa que Lucas pode fazer foi puxar sua espada, e arremeter contra as duas
outras, que estavam em pleno choque. Bateu nas espadas, e foi para o meio dos
dois.
“PELO AMOR DE DEUS!
PAREM!” gritou. Os dois guerreiros olharam-se assustados, depois para o soldado
que tentava levá-los de volta a razão. Ambos baixaram a espada. Counes se foi
primeiro. Nathaniel ficou um pouco mais.
“Desculpe garoto.
Obrigado.” Disse Nathaniel, parecendo envergonhado.
Lucas não soube o que
dizer. Nunca um cavaleiro templário havia pedido desculpas a ele antes, fosse
qual fosse o disparate que fizesse. Resmungou um “Hmm”, e ficou por isso mesmo.
Mas antes que Nathaniel partisse, ele perguntou.
“Que quis dizer sobre
poder ser de patente maior quando quisesse, enquanto Counes não poderia?”
“Ahn, deixe isto
garoto.”
“Quero saber. Como
assim? Que significava isso? Quero dizer, o senhor é muito bom, mas Counes tem
mais tempo na ordem!”
Nathaniel o observou
por alguns instantes, e com um sorriso estranho no rosto lhe respondeu: “Você é
inocente, bravo, e ótimo lutador garoto. Têm fé. Legítima. Mais do que pode ser
dita de mim, por exemplo. Não é um santo. É um verdadeiro cavaleiro templário,
ou assim deveria ser. Por que não é?”
Nunca lhe perguntaram
isto antes. Lucas apenas balbuciou “Templários são aqueles escolhidos senhor.
Quero dizer, é...”
“Garoto, você não é
um cavaleiro, pois não é nobre. Não deveria importar, mas importa. Dinheiro.
Dinheiro é o que faz um templário. E disto, minha família tem muito. Enquanto
Counes não têm. Este ouro, ele pode não gostar tanto quanto você. Mas precisa,
pois está na miséria. Apenas têm o título de cavaleiro para se sustentar. Este
pedaço de ouro dele, apenas pagará suas dívidas, embora as pague muito bem,
tenho certeza.”
E dito isso,
Nathaniel partiu, deixando Lucas com seus pensamentos.
++++
Acamparam a última
noite antes de atravessar o rio. Para passar todas as coisas, foi amarrada uma
corda em duas árvores, uma em cada margem. Atravessariam de manhã. Ficou
decidido que atravessados, cada um seguiria seu caminho. Seria melhor desta
maneira.
Lucas tentou de todas
as maneiras dormir, mas não conseguiu. Estava inquieto. Aquela noite lhe
trouxera pensamentos estranhos.
Como aquele sarraceno
que conseguiu chegar por trás de Mateus sem ninguém poder impedi-lo. Como o
Gordo que escorregou para a morte na montanha. Como de repente os cinco
templários se tornaram três, embora só dois fossem usufruir do tesouro.
Decidiu levantar e
caminhar. Fez isso durante um par de horas, andando pela mata siliar quando, na
borda da mata, viu cavaleiros ao longe, com tochas. Os sarracenos!
Aproximavam-se! Perto demais, perto demais! Teriam que apostar atravessar o rio
a noite!
Correu para avisar os
companheiros, já pronto na corrida, quando, ao chegar no ponto onde
descansavam, viu Counes em cima de Nathaniel. E viu a espada de Counes fincada
no ventre do outro.
E tudo se encaixou de
maneira macabra.
Counes se virou, e
viu Lucas. Pareceu surpreso. Ao olhar o lugar onde dormia antes, Lucas
compreendeu por que. Estava todo com buracos de espada.
“Ele me mataria” Não
teve dúvidas.
“Lucas! Onde esteve!
Você não sabe o que aconteceu! Venha cá e...”
“Você matou a todos.”
Disse.
Counes o olhou com
aqueles olhos gélidos. Começou a caminhar em direção a ele.
“Deixou que o
sarraceno matasse Mateus” Continuou Lucas.
“Aconteceria cedo ou
tarde.” Disse sem emoção.
“Deve ter empurrado o
gordo para o precipício!”
“Só o enviei para
junto de seu querido amigo!” Continuou Counes.
“Matou Nathaniel
enquanto estava dormindo!” Lucas falou entredentes.
“Ah, não. Eu o deixei
acordar. Para ver!” E aí um sorriso frio surgiu em sua boca.
E então lutaram.
Espada contra espada, aço refulgindo, enquanto uma chuva forte começou a cair.
No entanto a experiência de Counes pesou. Logo Lucas estava com sérios
ferimentos, enquanto Counes seguia ileso.
“Se renda rapaz. Para
ter uma morte rápida.”
“Para que tudo isso.
Duas peças dessas lhe pagaria as dívidas e lhe deixaria rico! Não desejava
nenhuma para mim!”
Os olhos de Counes se
estreitaram “Sim. Ele deve ter dito a você. Pois bem Lucas. Ser rico é bom. Mas
ser três vezes mais? Melhor, não? Eu acho, pelo menos!”
Lucas mal acreditava
no que ouvia. Um dia chegou a venerar aquele homem!
“Ouve o que diz? E
seu juramento!”
“Com o que vou
ganhar, compro meu juramento de volta.” Disse Counes com um sorriso. “E faço
com minha alma o que quiser de novo. Afinal, estou livre de todos os meu
pecados, não é?”
“Para sempre, seu
maldito!” Disse uma voz atrás de Counes. E a espada de Nathaniel trespassou
Counes. Nathaniel caiu com o traidor ao seu lado.
Lucas correu até ele
como pode. Nathaniel apenas teve forças para lhe dizer uma frase: “Você estava
certo Lucas. Este ouro... Não presta...”
E os dois estavam
mortos. Não havia tempo para mais nada além de fugir. Lucas pegou seus
pertences, e preparou-se para atravessar o rio, quando olhou para o ouro.
Aquele maldito ouro, que custou a vida de todos. Tanto sacrifício só por
cobiça. Se fosse por ele...
E então, Lucas pegou
as quatro partes do Ovo do Dragão.
“Deixe isto, e vá!”
Dizia uma parte de sua mente
“Você não usará para
si! Dará para os pobres!” Dizia outra, numa voz mais obscura.
“Você não precisa
disso! Nunca precisou!” Continuou a outra voz, mais fraca.
“Você pode ajudar
mais gente! Parar de lutar! Viver e ter uma família.” Disse a voz obscura mais
forte.
“Isto não te fará
feliz!” Tentou uma ultima vez a primeira voz, desaparecendo, enquanto Lucas já
chegava no rio.
“Isto realizará teus
sonhos! Será um homem realizado!” A voz obscura era dominante, Lucas já chegava
perto da metade do rio. A correnteza estava muito forte!
“Você não precisa
de...” a primeira voz...
“Tudo o que você
precisa é de...” a segunda voz...
“Ouro” Disse Lucas,
antes da corda se partir com o seu peso e o do ovo do dragão, e ele ser tragado
para o fundo do rio, com aquele tesouro assassino.
++++
Cinco dias mais
tarde, uma criatura dourada emergiu de um rio muitos quilômetros acima. Era um
pequenino dragão dourado, do tamanho de um cão grande. Onde ele emergiu, estava
um homem com vestes finas e barba pontuda.
“Onde esteve Aurum?”
“Passeando Mammon.
Vendo o mundo. Sendo venerado.”
“E matando?”
Perguntou Mammom.
“Aurum nunca mata. Os
humanos é que matam por estranhos motivos”
E numa gargalhada compartilhada,
os dois demônios sumiram.
por P.A. Teixeira

Um comentário:
Curti! Parabéns
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