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Introdução
Num quarto fracamente iluminado de um bairro pobre de Recife, que fedia a mofo, latrina e suor, a dor de cabeça acabava de acordar Xavier.
Este incômodo já era um velho conhecido seu. A sua rotina, terrivelmente instável, fazia com que ele normalmente não dormisse, ou, se conseguisse, dormisse mal. E usualmente era a dor de cabeça seu primeiro bom dia que recebia.
Mas hoje tinha algo a mais. O forte cheiro de ferrugem. Empesteava o quarto, a casa, vindo principalmente das roupas que Xavier havia usado no trabalho, no dia anterior, e de suas mãos. Mas sabia de onde vinha, e o motivo do cheiro forte. Jó havia lhe explicado sobre a profissão. Quando se sujava as mãos no trabalho, o cheiro era este mesmo. E ele tinha trabalhando muito na noite anterior. Motivo pelo qual não tinha dormido. Motivo pelo qual sua dor de cabeça lhe dava bom dia novamente.
Tudo estava bem. Tudo normal. Era hora de trabalhar.
A oficina BaiBai. Barulhenta. Suja. Um tanto acabada e caindo aos pedaços. Chapas de aço enferrujadas a um lado. Clientes enganados e indignados a outro. Faz parte da vida.
O barulho era o bom dia da oficina para a cidade, e a cidade recebia este bom dia como qualquer pessoa normal receberia: Olhando indignada para a massa de ferro e solda, que acumulava sujeira, trapaças, roubo e demais subterfúgios – que pelo excessivo tamanho da lista não serão citados aqui – dentro de suas dependências, e ao redor da mesma. Dentre as quais podemos citar Dário.
Dário ficava ao lado da oficina. Era um traficantezinho viciado e inofensivo, ou pelo menos parecia, na faixa de uns Vinte e muitos anos. Na maioria das vezes, nem era notado na verdade. Só os funcionários da oficina que sabiam com certeza que ele podia estar por ali. Tinha um jeitão de boa praça, próprio dos malandros menores, ou dos pobres coitados que se achavam muito malandros. Sempre pagava uma rodada de cerveja pra todo mundo, e às vezes rolava até um “tapa” de boa fé, que quase todos aceitavam, terminando suas tardes rindo abestalhados da vida, enquanto Dário balançava sua barriga protuberante, cheia de álcool. Nessas ocasiões, o falso loiro inventava umas histórias de como tinha sido matador temido por deus e o diabo, como era terrível e intocável.
Obviamente a história era uma fraude.
Pelo menos todo mundo dizia isso.
Uns dois ou três já afirmaram que viram o que Dário podia fazer com raiva, uma faca, e um pobre coitado pela frente. Esses Tinham um pouco mais de cuidado com ele. Juntando isso com o fato que normalmente andava com uns dois guarda costas tamanho armário, era algo a se levar em conta.
Xavier trabalhava a duas semanas na oficina, mas já tinha saído nessas bebedeiras. Pelo menos em três vezes tinha fumado uma do cara, e já era quase “brothar” de Dário. Diziam que cedo ou tarde os dois iam se agarrar. Dário ria da piada. E gostava. Xavier só se calava. Era gente boa. Mas bem calado. Beeeem calado. Enfim, todo mundo achava que o cara tinha gostos... Exóticos.
Na sexta a noite, como de costume, Dário pagou a rodada. Levou todo mundo para uma casa com uma singela luz vermelha no topo. As “garçonetes” Já começavam a fazer seu trabalho. Tudo na mesma. Só os dois rinocerontes do Dário não estavam. O mesmo afirmou que eles deviam estar em qualquer ouro lugar. Nem tinham ligado! Safados...
Xavier e Dário ficaram separados da turma. Todo mundo tinha se convencido que os dois iam se agarrar. As piadas aumentavam e, de repente, ninguém nem prestava atenção.
Dário, com uma garrafa de vodka na mão, e um cigarro na outra, já começava a contar seus “atos” para Xavier – Ah, a gente era peso Brothar! Ninguém segurava a gente. Só os melhores! Só os melhores!
- Ta, ta... melhores... já ouvi essa. Mas esse bando aí. Veio de onde? – Deu de ombros Xavier.
- Hann... Deixa eu ver... – Dário fechou os olhos. – Puta meu! Foi uma história mó macabra cara! Você nem vai acreditar! As vezes nem eu acredito! HAH!
- é? Conta ai.
- Pô! Tipo! Tinha um cara que seqüestrou uma vadia que era mulher de não sei quem, aí a gente que não gostava muito do cara, aproveitou a desculpa para se juntar, e dar um papo com ele. Um papo sério!
-É? E daí? – Xavier se inclinou na mesa. Não tinha ninguém onde eles estavam. O barulho era quase insuportável. Eles só conseguiam se falar por que estavam um do lado do outro. Bem perto.
-Aí a gente foi né cara? Chegamos, na cara dura, e pá! Tiro pra tudo que é lado! O cara tava com o bando dele, e tava com a mulher e um guri retardado lá... Enfim, sangue e fogo pra tudo que é lado. Um inferno! Mas, aí, no fim das contas, a gente pegou o miserável.
-É? É quente mesmo...
-Afe. Mas foi um pé no saco. A gente matou a cadela no meio da bala. A doida foi pegar o guri dela.
Xavier estava com os pelos do corpo eriçados. Parecia excitado. Corria a mão pela calça. Dário estava feliz. Ia se dar bem.
-Putz... Mas... Dário... Depois de matar tanta gente... Tu ainda lembra do nome dela? Eu mesmo duvido...
-Bem, todo mundo não... Mas essa cadela... Eu lembro viu?
-É? E qual era?
- Luciana... Luciana Savier... Ou algo assim... Sei lá! Mas era Luciana... Linda viu?... Mas estúpida o suficiente para entrar na frente de bala... Por um fedelho! Doida...
-É?... Pô... E o guri? Que rolou com ele?
Dário estava bem excitado. Parecia que Xavier tinha desses prazeres mórbidos. Ele gostou do rapaz.
-Ah! Sei lá! Deve ter morrido... Engraçado... – Parou um instante... – por acaso lembrei o nome dele... É... Um... Cláudio... Acho... Não... É...
-Carlos. – Disse Xavier, com um súbito clique. Que poderia ser um interruptor, um pedaço da cadeira ou da mesa quebrando, ou uma pisada estranha no chão.
Mas Dário sabia do que era o som.
Era o som que afirmava que ele devia ter dado uma boa trepada antes de ir ali. Que ele podia ter pegado emprestado aquela grana dos agiotas, que não tinha nem o risco de pagar. Que Não importava mais ele ter gonorréia, e que o Carlão nunca mais ia ver ele.
Era o som que dizia que ele iria morrer.
-Sabe o que é engraçado? É que Carlos é o meu primeiro nome...
Dário não riu.
-E mais ainda... Luciana... Xavier... É o nome da minha mãe... Era...
Dário chorava.
-Tem dois caras que vão arrancar o teu couro quando...
-O noticiário de hoje mostrou dois homens grandes e fortes, mortos numa fazenda. Mas talvez você não tenha visto.
-Tem mais gente... – Ele quase soluçava. Não tinha coragem de gritar. Não tinha voz para gritar. Não conseguia gritar nem mesmo em sua mente. Estava morto. Morto! – que vai te procurar...
-Ah, nãããão... Você não entendeu...
“Quem vai procurar essa gente... sou eu!”
O tiro, no coração, foi abafado por um bolo de panos de pratos, sumidos da cozinha. Ninguém teve a impressão de ter ouvido um tiro. Talvez alguma coisa que tenha caído. A bala ficou alojada. O sangue ainda assim espirrou. Um pouco na camisa, um pouco nas mãos... Ficariam com o cheiro de ferro de novo. Tudo bem... Isso fazia parte do trabalho, como sempre falara Jó, seu professor.
Serviço feito.
Serviço iniciado.
E era, realmente, só o começo. Tinha um bando inteiro para perseguir e matar. E ainda tinha que ganhar uma grana para o jantar da próxima semana. Levantou-se com o cadáver, que não escorria graças aos panos.
-Bebeu demais esse.
Dário se deu bem, pensou todo mundo. Ninguém saberia para onde ele foi.
Ninguém se importaria.
Xavier olhou para a lua, depois de jogar o corpo no meio do mato. Demorariam alguns dias, talvez semanas, para descobrirem o corpo ali, e mais algum tempo para que fosse identificado. Isto é, se ainda pudesse ser identificado.
Xavier, o homem, esquecia do cheiro do sangue em suas mãos. Carlos, o menino, lembrava a noite em que havia morrido e renascido.
Sabia que iria ter pesadelos novamente.
Tudo bem. Menos um na lista.
Faltam seis.
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Por P. Teixeira.
Que thal? han? han? =D
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