Este conto foi postado no site O Nerd Escritor e foi escrito por mim num exercício para melhorar as minhas descrições de batalhas. Espero que curtam =)
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RAINMAKER
Do lado de fora, a chuva caia abundante e ruidosa, embora não o suficiente para abafar os barulhos de choro da jovem que abraçava o pai dentro de casa, rodeados por estranhos.
O que a princípio se desenharia como uma cena de tristeza, se observada mais de perto, se provaria uma cena comovente. Era claramente um choro de alegria e alívio, que era de certa forma compartilhada pelo pai, embora este não chorasse.
A menina era de uma beleza simples, mas forte. Seus cabelos negros com mechas coloridas contrastavam com a pele clara, quase amarelada, e os olhos meio repuxados e cinzentos. Os lábios, belos e moderadamente cheios sorriam em seu rosto oval, em oposição as lágrimas que caiam. Estava na flor de seus 15 anos, embora aparentasse ter um pouco mais, e trajava roupas escolares japonesas, daquelas que atiçam a tara dos homens.
Alguma coisa daqueles traços se perdia na face do pai, um homem forte para lá dos quarenta anos, mas muito bem conservado, de rosto quadrado e queixo firme. Os traços militares eram demonstrados principalmente no corte do cabelo e na expressão sisuda na face, de olhos que um observador desatento pensaria estar fechados.
- Calma meu amor, calma, já passou, já passou – era o pai acalentando a menina. Ela conseguia apenas balançar a cabeça e soluçar de volta. O homem voltou-se para o rapaz que estava parado no canto da sala segurando um guarda-chuva fechado e ensopado. Não era tão bonito quanto os heróis das histórias comoventes deveriam ser, mas possuía um charme próprio, com uma expressão serena que parecia dizer “Tudo está bem agora”, e que costumamos acreditar. Seu cabelo era negro, liso até as orelhas, num corte a là James Dean, que complementava seus profundos olhos azuis escuros, como só o fundo de um lago poderia ser. Seu rosto mantinha um sorriso calmo e acolhedor que conquistava por si só. – Muito, muito obrigado. Eu nunca esquecerei!
- Ah, deixe disso – respondeu o rapaz, numa foz tão tranqüilizadora quanto o sorriso. – Eu apenas vi a menina precisando de ajuda, nada demais! – disse num japonês arrastado que faria um lingüista do idioma sofrer um infarto, já que ignorava tantas regras de etiqueta quanto fosse possível. A família não se importava.
- Obrigado, senhor – disse a menina se recompondo e se inclinando, antes de lhe dar um abraço apertado. – O senhor me salvou daquelas pessoas estranhas. Eu seria seqüestrada se não fosse por você! – disse entre lágrimas e sorrisos. Antes que o rapaz, encabulado, pudesse responder, o pai da moça usou a deixa.
- Miyuki, você deve estar cansada. Vá com os seguranças. Descanse em casa. Amanhã falaremos.
- Sim pai – disse a menina sorrindo. Deu um beijo na bochecha do pai, o que certamente seria um comportamento inapropriado na frente de um estranho em qualquer outro momento, mas ele apenas a abraçou, e a observou enquanto abraçava novamente o rapaz que salvara sua vida e saia com os seguranças que lotavam a sala.
Assim que a jovem saiu, o japonês quarentão se levantou com sua bengala à mão, embora não aparentasse ser o tipo que precisava de bengalas. Restavam apenas ele e o rapaz na sala.
- Agradeço novamente, senhor… – fez a pausa para as apresentações
- Rain, senhor. – Respondeu o rapaz acompanhando o senhor enquanto começaram a caminhar em direção a outro ponto da casa.
- Chuva, em inglês – respondeu o homem em japonês, antes de subitamente mudar a linguagem da conversação para o inglês – É a sua língua, suponho? Sou Sawano Kawaguchi, senhor Rain.
- Ah, que ótimo! Não sou acostumado a sua língua, senhor Kawaguchi. Muito obrigado. – Respondeu com alívio Rain. Estavam se aproximando do pátio da casa, mas não entraram nele, já que era aberto ao céu e ainda chovia forte.
- Percebo. Está aqui a turismo, senhor Rain?
- Não, senhor Kawaguchi. Estou aqui a trabalho. Devo retornar logo.
- Trabalho? Interessante – Respondeu Kawaguchi, se mantendo de costas para Rain, olhando para seu enorme jardim. – Não sabia que o Cálice contratava gente tão nova. Ou você é… como é mesmo a palavra… um estagiário?
O silêncio durou alguns desconfortáveis segundos antes de Rain quebrá-lo com um sorriso travesso “Já sou efetivado pela companhia, senhor. Estava assim tão óbvio?”
- Ah, não, sinceramente, não sinto nenhuma sede de sangue vinda de você, nem mesmo seu chi. Seu disfarce é mesmo muito bom senhor Rain. Pode chamar isso de intuição de guerreiro.
Rain apenas sorriu, sem nenhuma presença de nervosismo, raiva ou frustração em seu corpo. No máximo, parecia com uma criança cuja brincadeira havia chegado ao fim de maneira divertida.
- Queria que tivesse durado um pouco mais de tempo para o senhor me descobrir, mas não tinha muita esperança.
- Até quando me apunhalasse?
- não, apenas eu me revelar.
Não havia mentira na voz de Rain. Kawaguchi se virou para seu novo adversário, e levantou a bengala.
- Sabe quem eu sou, senhor Rain? – disse enquanto a aparência de sua bengala mudava misticamente para a forma de uma katana embainhada. A bainha da espada apresentava lindas gravuras de tigres, leões e dragões entrelaçados, que eram aparentemente feitas de ouro.
- Sawano Kawaguchi, ou simplesmente Kawaguchi, o decapitador, mestre do aço, terceiro senhor de Masamune, a espada que atravessa. Ex-comandante da força de ataque do Cálice, grupo que desertou à dezoito meses. – respondeu Rain com olhos serenos, como se a transfiguração da bengala em espada diante de seus olhos nada mais fosse que um truque barato de mágica, daqueles bem ruins, feitos num bar por um mágico bêbado.
- Muito bem rapaz. Fez o dever de casa. Portanto o que eu sou capaz de fazer, e não está vindo aqui imprudentemente.
- Claro. Inclusive, tenho que dar parabéns pela frança, há três meses. Nunca vi alguém ser despedaçado tão belamente.
- Obrigado – Disse Kawaguchi se colocando em posição de saque. Rain respondeu o movimento colocando o guarda chuva à frente, como se fosse uma espada. Kawaguchi esboçou um sorriso e disse:
- Desconfiava. Bela espada. Qual o nome dela?
Pela primeira vez Rain parecia um pouco confuso. Aos poucos compreendeu: “Espada? Quer dizer…?” Disse apontando com a cabeça para o guarda chuva. Kawaguchi confirmou com a cabeça. Rain pensou um pouco antes de responder com um sorriso brincalhão “Hmmm… Guarda-Chuva, eu acho!”
- Gozando de minha cara senhor Rain? Bem, terei que fazer o senhor se arrepender disto. Espero que me dê alguma diversão, senhor Rain.
- Não se arrependerá, senhor Kawaguchi.
- Ouço fé em suas palavras? – E antes que Rain dissesse qualquer coisa, a lamina de Kawaguchi foi desembainhada na velocidade de um tiro.
A espada e o guarda chuva se encontraram no meio do caminho. E contrariando a lógica e a física, o guarda chuva permaneceu ileso, enquanto ele e seu portador eram lançados três metros para trás, se contorcendo e caindo em pé. Kawaguchi não pareceu surpreso pelo acontecido, tampouco Rain, e os dois se lançaram um contra o outro.
Em menos de um segundo já estavam trocando golpes. Kawaguchi lançou uma sequência de cortes, pela direita, esquerda, por baixo e finalmente pulou fazendo uma manobra no ar e indo cair em cima de onde Rain estava, a qual ele se esquivou do golpe a tempo. Rain devolveu com estocadas que foram desviadas pela espada de Kawaguchi, e no último ataque teve sua “arma” engalfinhada com a katana do adversário, e levou um chute no estômago, voando vários metros para trás, e caindo no enorme jardim, onde a chuva continuava.
Os dois correram para se enfrentar novamente, e trocaram mais golpes. A katana de Kawaguchi parava no guarda-chuva de Rain, e vice-versa. Num momento, o guarda chuva de Rain relou em um bloco de mármore decorativo do exótico jardim onde lutavam, e foi cortado de maneira tão limpa que pareceu ter sido feito daquela maneira. O sorriso de Kawaguchi se expandiu ao ver a cena. Rain lançou mais uma seqüência de golpes antes de tomar impulso no topo de uma fonte do jardim, girar seu corpo com uma velocidade insana e explodir um poderoso chute no peito do adversário, que foi jogado para trás quebrando algumas estátuas enquanto Rain pousava de seu movimento como uma pluma.
A tensão no ar pareceu aumentar, literalmente. A batalha, que mesmo violenta como estava sendo permanecia silenciosa, tinha como trilha sonora o barulho da chuva, som dos trovões e o bater do coração dos dois guerreiros. Soava quase como uma percussão crescente no ouvido dos oponentes, mais rápida e mais forte a cada segundo em que se encaravam, até que explodiu quando seus ataques se encontraram novamente.
Os golpes de ambos passavam a centímetros dos pescoços inimigos. Quase decepavam pernas e braços, constantemente chegavam a milímetros de pontos vitais. A chuva era a única vítima dos golpes ferozes na dança perigosa que aqueles homens faziam.
Então, após um novo momento onde ambos foram jogados para trás pela força de seus golpes, Kawaguchi zombou novamente das leis da natureza, o cortar uma grade, jogar para cima os pedaços de metal antes que caíssem no chão e, com um movimento de sua mão, fazer com que voassem – sim, literalmente voassem – até Rain. A este pareceu que a natureza merecia mais algum desrespeito, então além de desviar de alguns pedaços de metal, desviou o resto com o próprio corpo, fazendo estas lâminas afiadíssimas apenas se dobrassem e amassassem ao acertar seu corpo. E cuspindo na cara das leis da física daquele lugar e pisando no resto de dignidade que o senso comum possuía, fez um movimento giratório com seu guarda-chuva, produzindo um aro de gelo da ponta de sua “arma”, o agarrando com a mão livre e o lançando contra Kawaguchi. O oriental não se intimidou, e em milésimos de segundo adotou a postura da espada acima da cabeça, e o ar ao seu redor ficou insuportavelmente tenso. Então atacou o aro de gelo quando este chegou, e o cortou ao meio. Os pedaços resultantes voaram a esmo, e atingiram partes do muro de concreto, cortando-os como se fossem feitos de papel.
- Um dançarino da água. – falou pela primeira vez desde que a luta havia começado. – Eis um oponente raro. Alguém já me disse certa vez que é uma escola de magis. – Havia certo desprezo na voz de Kawaguchi ao falar dos tais Magis.
- Certamente meu clã se especializou na criação de especialistas em magia, senhor do Aço – Respondeu Rain, concordando com a trégua implícita. Ambos mantinham certa distância e se rodeavam, mas aparentemente chegaram a um acordo silencioso, já que ambos saíram da chuva que ainda caia pesadamente. Estavam molhados, mas não ensopados como seria o esperado. Como se a chuva não fosse rápida o bastante para tocá-los.
Mas afinal de contas, a normalidade e a lógica saíram para beber com as leis da física naquela noite, e não seria prudente sequer deduzir coisa alguma.
- Você não me parece um Magi, senhor Rain. – disse Kawaguchi. O modo como ele disse isso quase deu a entender que era um elogio.
- Tenho meus truques de mágica, senhor – disse Rain, no que parecia uma simples conversa de bar entre amigos de longa data, e não uma batalha desesperada e inconcebível até a morte. Kawaguchi torceu o nariz como se tivesse ouvido uma piada ruim, embora de um jeito engraçado, e perguntou
- E por que não faz um truque de mágica para mim agora?
- Por que a afinidade de seu chi com o metal lhe dá a característica da dureza, senhor Kawaguchi. Eu poderia chamar um indiano encantador de serpentes, um voodoo ou a fada dos dentes que mágica alguma lhe afetaria enquanto permanecer forte. – disse Rain no mesmo tom de quem responde a pergunta “qual sua maior qualidade?” numa entrevista de emprego.
Kawaguchi sorriu.
- Como fez aquilo com as lâminas de metal?
- O corpo humano é feito em sua maior parte de água. Se um dançarino d’água consegue compreender isso em sua totalidade, pode fazer com que seu corpo faça qualquer coisa que a água possa fazer. Como um lago que amassa balas de magnum .44 em sua superfície. Lâminas de metal não são lá grande coisa.
- Heh. Vivendo e aprendendo. E esta espada, afinal? Realmente, é muito boa! Qualquer outra seria cortada pela minha Masamune.
Rain olhou para seu guarda-chuva parecendo meio contrariado, e perguntou – Por que insiste em achar que é uma espada?
- Garoto, seja uma espada, uma lança ou um lightsaber, corta belamente e eu a desejo em minha coleção – explicou com um sorriso largo. Rain só conseguiu sorrir e dizer.
- O senhor, fã de Star Wars? Não acredito! - se espantou Rain
- “A força é a lâmina do coração”
Os dois riram juntos.
- A nova trilogia é uma droga.
- Nem me fale. – Concordou Kawaguchi, e os dois voltaram a lutar
Se os ataques antes eram precisos, haviam passado para a categoria de cirúrgicos. Logo os dois compartilhavam cortes profundos nos ombros, pernas, braços e peito. Kawaguchi atacou pela direita, mas não passava de uma finta para uma cotovelada, que Rain mal evitou, devolvendo um chute para afastar o oponente. Devolveu um ataque nas pernas que Kawaguchi evitou pulando por sobre Rain, mas este aproveitou a brecha e criou uma coluna de gelo do chão molhado para atingir o inimigo, que a cortou antes que a atingisse, e pulou para longe.
A luta não durava mais que uns 15 minutos, mas cobrava seu preço. Os dois sentiam o peito arder, a respiração difícil e entrecortada, enquanto o coração acelerado fazia tremer os seus corpos.
O próximo ataque teria que ser o último.
O chi de ambos se espalhou pelo ambiente. Uma pessoa normal teria seu espírito esmagado pela presença aterrorizante dos dois lutadores. Fisicamente, nada havia mudado, mas um observador casual sentiria com o instinto o que estava para acontecer. A sensação mais próxima seria a de ver dois mísseis se aproximando um do outro bem na sua frente. A natureza parecia já estar farta de ser menosprezada e suas regras quebradas, pois estava claramente se contorcendo. As plantas no jardim morriam, fosse congeladas ou cortadas por uma força invisível. O próprio jardim, pedras, estátuas, muro, estava colapsando.
Os dois adotaram suas posturas. Kawaguchi embainhou sua espada e adotou a posição de um mestre de Iaiojutsu, o mestre da arte de sacar a espada. Rain, por sua vez, adotou uma estranha postura. Colocou-se de lado para Kawaguchi e deixou os braços cruzados, com o braço que segurava o guarda-chuva apontado para trás, e o outro braço com a mão aberta em direção de Kawaguchi. Se o espadachim achou estranha a posição, não demonstrou de nenhuma maneira.
O próprio tempo parecia estar passando mais lento para presenciar o final desta batalha. Os dois oponentes, no calor do momento, conseguiam enxergar tudo, a cada momento, a cada segundo. Viam as gotas, cada uma delas, caírem até o chão. Sentiam o cheiro da terra molhada. Nenhum dos dois sentia medo do outro. Ambos temiam a própria morte.
E por fim aconteceu.
Numa fração de segundo, os dois golpes se chocaram, se enfrentaram, e mais uma vez o empate aconteceu. De tão violento o impacto, ambos foram jogados metros para trás, caindo dentro da casa em lados opostos, e suas respectivas armas foram perdidas no meio do campo. O guarda-chuva de Rain terminou espetado no canto mais próximo de Kawaguchi, enquanto sua katana, Muramasa, estava fincada num bloco de mármore próximo a Rain.
E em um momento Kawaguchi já havia se levantado e agarrado o cabo do misterioso guarda-chuva. Se aquela arma havia agüentado sua Muramasa fortificada com seu poder sobre o aço, deveria ser ainda melhor que sua espada. Rain havia acabado de se levantar e visto a ação do oponente. Dirigia-se à katana presa no mármore, mas ainda havia tempo! Kawaguchi correu com tudo que podia, agregando sua energia a seja lá o que houvesse no guarda-chuva, e chegou a Rain no segundo em que ele segurava o punho de Muramasa!
E ficou surpreso ao ver o sangue jorrando no ar. Pois este sangue era seu.
“Como…” começou a falar no ar, chocado, ao ver o rapaz segurando sua espada molhada com seu próprio sangue. O golpe, um arco de baixo para cima, foi tão forte que o tirou do solo. Quando aterrissou por trás do rapaz, viu a expressão de tristeza no rosto do homem. Não era aquela conclusão que nenhum dos dois queria. Rain se virou para seu oponente caído, e falou num tom grave: “Por que teve de usar o guarda chuva, velho…”
O guarda chuva! Kawaguchi olhou para sua esquerda apenas para identificar os restos do que um dia foi um belo guarda chuva preto. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Até mesmo a sensação de antes, o poder que sentia naquele item, havia devanecido. Sentia apenas um objeto normal e cortado na sua frente. O cabo com uma parte da aste metálica ainda estava seguro em suas mãos.
- Achei… Tinha certeza que era uma arma… Uma espada escondida… – Disse rindo, como um garoto que foi pego no meio de uma traquinagem.
- Tudo que você pode enxergar em minha arma é madeira e ferro? Esperava bem mais… – respondeu Rain sem nenhuma rispidez na voz. Apenas se compadecia pelo fim da luta. Kawaguchi observou novamente o guarda-chuva quebrado, buscando algo a mais naquele pedaço retorcido e cortado de ferro, madeira e linho… encharcados…
- Água… – Gemeu Kawaguchi, com um sorriso, que foi compartilhado por Rain – Você congelou a água que havia molhado o guarda chuva, e a fez ter tal dureza que não poderia ser cortada por minha espada… Que técnica magnífica!
- Eu disse que tinha meus truques de mágica… – Disse Rain encabulado. Mais uma vez, a cena inicialmente bizarra ficava ainda mais bizarra. Um homem que controlada a água conforme a vontade, a ponto de criar uma peça de guarda chuva quase indestrutível, conversando com um samurai dos dias de hoje, que teimava em não morrer mesmo tendo sido eviscerado por todo o abdômen, como se fossem velhos amigos. Sorriram um para o outro sem nenhum sentimento de pesar em seus seres, sem nenhuma sensação de algum ser superior ao outro.
- Por que salvou minha filha? – perguntou Kawaguchi, enquanto o resto da chuva caia molhando sua ferida. – É óbvio que não desejava usá-la como refém, ao contrário dos outros servos do cálice que a levaram. Desejava apenas me encontrar mais de perto?
- Ah, não senhor. Cheguei à cidade a pouco tempo, e iria desafiá-lo formalmente, mas fiquei sabendo da atitude de alguns dos meus “irmãos” da organização. Não gosto muito desses métodos.
- Muito honroso de sua parte.
- Nada de honra nisso. Apenas fico realmente nervoso com atitudes como esta.
Kawaguchi percebeu que o assunto era muito mais pessoal, e deixou de perguntar. O que é uma tremenda consideração, vindo de alguém que acabara de levar um talho fatal de seu interlocutor.
- E o que irá fazer com ela?
- Sua filha?
- Você não tocaria em minha filha. – Riu-se Kawaguchi, com um arquejo – Estou falando da espada.
Rain olhou para a arma em suas mãos. Muramasa. Uma lâmina lendária, que poderia cortar qualquer coisa. Homens dariam fortunas para tê-la em sua coleção. Outros muito mais, para poder usá-la.
- Vender num brexó. Ou jogar no rio, talvez.
Kawaguchi riu de uma forma que nem o mais insano dos homens se atreveria naquela situação. Forçou a parar de rir, e disse a Rain
- Eis um homem que eu gostaria de ver com minha espada.
Ambos se olharam por mais um momento. A chuva dava os primeiros sinais de cansaço, embora por bem da verdade, nem meia hora havia passado desde o início da luta.
- Fez seu dever de casa bem, não é senhor Rain? – disse o velho samurai se virando, o que já era uma sandice, e se ajoelhado, o que faria um carniceiro de sangue frio se arrepiar.
- Sim senhor Kawaguchi. – Não haviam mais sorrisos no rosto de Rain
- Então sabe o que vem a seguir, não sabe?
- O senhor não se renderá. “Pois o aço pode até quebrar…”
- “…Mas nunca se dobra”. Sim senhor Rain. É uma honra ver um homem tão bem preparado. Mas afinal de contas, nunca ouvi falar do senhor no Cálice, enquanto fiz parte dele. Afinal, qual seu título?
- Deveria estar meio óbvio nesta altura do campeonato.
- Honre-me, por favor.
- Apenas uma piada com meu nome senhor… Mas deve conhecer. Eles me chamam de Rainmaker.
O rosto de Kawaguchi demonstrou reconhecimento, e algo como medo, mas este passou e sobrou apenas o respeito.
- Rainmaker… – disse num sussurro. Então, com um sorriso largo, completou – Então minha honra descansa em paz, senhor Rain.
- Bom saber disso – respondeu Rain, com um sorriso sincero e tranqüilo, que dizia que tudo terminaria bem.
E então Kawaguchi atacou com a aste do guarda-chuva apontada para o coração de Rain, numa velocidade ainda maior que qualquer outra naquela luta. Um movimento tão rápido e poderoso que não podia ser percebido por olhos humanos. Pois ninguém poderia superar aquilo.
Mas Rain o superou.
Num movimento inexplicável, Rain apenas espalmou a mão direita antes que a ponta cortada de se antigo abrigo para chuvas furasse seu peito, e disse numa velocidade que só seria percebido por um ouvido supersônico “Terceira dança das águas, Lótus Vermelha.”
E o movimento de Kawaguchi cessou. Seu corpo, no que foi o insulto final à natureza, transformou-se inexplicavelmente em gelo. Gelo vermelho, por conta do sangue do guerreiro. E de dentro de seu corpo uma forma parecida com uma escultura de gelo de um lótus fechado se formou.
“Desabroche” Disse Rain, espalmando ainda mais a mão, fazendo com que a escultura de gelo macabra se despedaçasse, assim como o fez o corpo de Kawaguchi, sumindo em milhares de partículas de gelo, como neve, só que vermelha. Em poucos segundos o gelo que havia se elevado em todas as dimensões derreteu por conta da chuva, e começou a cair como líquido.
Como uma chuva vermelha. Uma chuva de sangue.
Mas antes que Rain tivesse tempo de sair da chuva macabra, um grito feminino cortou a noite. A filha de Kawaguchi. Sentada próxima a uma parede. Sem os guarda-costas. Como a menina se safou dos gorilas, Rain não sabia dizer. Apenas entendia que, pela sua expressão aterrorizada, havia visto o suficiente da contenda. Por não se tratar de uma ameaça, Nem Rain nem Kawaguchi haviam notado sua presença ali.
Rain desejou que aquele sangue não o molhasse, e assim a chuva sangrenta terminou sem tocá-lo. Por fim, andou até onde estava a menina, com Muramasa em sua mão, e se ajoelhou a sua frente. A menina estava obviamente em choque.
Rain se acocorou apoiado na katana, apoiou o queixo na mão livre e se perguntou em voz alta, olhando para a menina.
“E então… o que eu faço com você?”
E uma névoa emergiu naquele lugar, escondendo os dois, o pátio, a casa, e tudo o que os olhos de um mundo comum não deveria ver.
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