Espero que gostem.
_________________________________________________________________
III
- Ande verme, pois os tubarões tem fome! – Berrou um marujo do Serpente Marinha, empurrando com um sabre Josh para o fim da prancha, e estranhando o dia cada vez mais confuso. Havia sangue nos olhos daqueles homens, e Josh só aplacaria uma parte. O restante seria por conta da tripulação do Melindroso, fosse quem fosse. Homem, mulher, adulto ou criança. E Izabel, a governanta que se afeiçoara a menina de olhos de mel a ponto de se rebelar aos seus patrões, temia por este momento.
Josh, vendo seu fim se aproximar cada vez mais, resolveu que não seria interessante para seus planos morrer ali, e se virou, assustando a todos e mais uma vez chocando a todas as tripulações, seja do Melindroso ou Serpente Marinha. Limpou a garganta (ah-hem) e começou a fazer jus a seu apelido em Cautle.
- Pois bem cavalheiros, com licença, posso saber por favor, por que estou sendo jogado da prancha?
Alguns piratas se entreolharam, antes de um deles se atrever a responder – Por que irritou nosso capitão, idiota!
- Mas, EU, irritei o senhor, excelentíssimo capitão, de alguma forma?
Caveira Vermelha, notando que subitamente as atenções se voltaram a ele, se limitou a responder – Você foi impertinente rapaz! Impertinente, estúpido, tolo, descuidado e desinformado – Seus marujos riram e concordaram – Nem ao menos se dignou a reconhecer quem sou!
E então, a língua de Josh começou a cantar sua ladainha.
- Mas capitão, caro capitão! – Disse descendo da prancha como se este ato não fosse absurdo e foi para o lado do capitão, conversando como se fossem velhos amigos – Se não soube quem era o senhor, foi apenas por que eu fui mantido na ignorância! Estes senhores me mantinham preso e escravo, senhor, apenas para vender meu corpo sem alma, para fazer experimentos diabólicos comigo!
- Que! Mas isto é um absurdo! Eu nunca nem vi este senhor em... – Começou lorde Cecee, sendo mais uma vez interrompido.
- CALADO! – Exclamou Caveira Vermelha, agarrando o nobre pela gola da sua camisa de linho, já não suportando ouvir a voz do patife – Você não tem voz aqui seu miserável! E se tornar a falar, eu mesmo arrancarei sua língua fora aqui mesmo!
- E como você vê – Continuou Kallahow, empolgado - Eles me mantinham preso em um barril, simplesmente por que eu não aceitava a forma que eles tratavam a mim e minha pobre irmãzinha – disse isso andando até o lado da menina mais próxima e amável que tinha visto, a de olhos de mel – aqui!
Izabel olhou espantada para o garoto que ela nunca vira na vida, vestido com as roupas mais esfarrapadas do mundo, moreno e sujo, ao lado da pequena, branca, limpa e digníssima dama, formando um contraste esmagador. E se surpreendeu ainda mais, ao ver a menina abraçando sorridente o rapaz matreiro, que poderia convencer até o próprio diabo de suas verdades. Pois afinal, era por isso que foi dado este apelido ao nosso bom e caro Josh.
E seu apelido era simplesmente “Língua do Diabo”
E vendo o olhar indagador dele para consigo, Izabel entrou na dança que a lábia de Josh cantava, e balbuciou o nome da garota para o rapaz, inconscientemente não sabendo por que diabos ajudava aquele garoto estranho, de olhar meio louco e inconstante. Mas sabia que, se tinha alguma chance de sair dali com vida, ou que pelo menos a chance fosse dada apenas à sua protegida, aquele garoto era quem garantiria isso, e ela daria cada segundo do tempo que lhe restava para isto acontecer. Sendo assim lhe soprou o nome da menina.
“Sarah”
- Você! Irmão dela? Mas você é negro rapaz! Tem sangue negro em tuas veias! Nem se parece com ela!
- Ah, meu capitão, ela herdou toda a beleza e classe de nossa mãe, embora os olhos do nosso pai. Eu, só herdei a brutalidade de nosso pai. Mas os olhos da nossa mãe.
Havia tanta naturalidade e sinceridade no que fora dito, que até mesmo lordes Cecee e a governanta Izabel se perguntaram se não havia verdade nas palavras daquele garoto. Na realidade, verdade até havia. Só dependia de onde procurá-las.
Bento ainda não estava satisfeito.
- Mas dissestes que nem sabia quem era teu pai, verme! Tentando me enganar? – Puxou o garoto pela garganta, que se desvencilhou com delicadeza.
- Mas meu Capitão, claro que não sei quem é! Afinal se soubesse, não estaríamos aqui como escravos, não é? Estaríamos com nosso pai, em uma boa casa aquecida e protegida, nos alimentando com nossa comida parca, porém honrada, buscando a evolução de nossas vidas com nossas mãos trabalhadoras! – neste momento, envolveu um dos braços nas costas do capitão do Serpente Marinha, como fazem os irmãos de guerra quando conversam sobre assuntos sérios – Não estaríamos servindo de ferramentas humanas nas mãos de criaturas tão vis – apontou para os nobres que estavam há poucas horas antes se debatendo sobre as aquisições das pessoas que ali estavam como se elas fossem meros utensílios domésticos, e que, tão absorvidos no dialogo, nem pensaram em protestar, e ainda menearam um movimento afirmativo com a cabeça – que nem se importam com nosso sofrimento (neste momento, uma das baronesas do local até mesmo verteu lágrimas)! Estaríamos sim, aquecendo o fogo de nossa lareira, enquanto minha querida irmãzinha Larah (“Sarah” sussurrou Izabel) – Sarah! Estaria brincando na sala, com brinquedos de madeira feitos pela mão de nosso querido pai, até mesmo, quem sabe, um feito por mim - E como para ilustrar a cena, pôs a mão no bolso (o qual foi acompanhado pelo desembainhar de espadas dos piratas, ainda chorosos, a qual abrandou apenas dizendo “calma, mais calma, por favor, pelas damas”) e tirou um pequenino e singelo boneco de madeira articulado, e o pôs nas pequeninas mãos da menina.
- Não meus senhores - Disse Josh, batendo a mão no peito e largando o capitão, estupefato e totalmente absorvido pela cena, quase esquecido da idéia de matar todos ali daquele navio após saqueá-lo e tocar fogo no que restasse. – Não conheci nosso pai, cuja única coisa boa que me fez foi me dar minha irmãzinha, a qual infelizmente não pôde, assim como eu, pois éramos muito novos, conhecer nossa doce mãe, que partiu em seu ultimo parto (sem trocadilhos, por favor, o momento é tocante). Mas eu a tenho. E ela tem a mim! E juntos (uma lágrima descia no rosto de Josh, assim como nos de muitos presentes) triunfaremos sobre nosso sofrimento!
E, assim, soaram de repente aplausos vindos dos nobres, que antes venderiam a menina e esquartejariam o rapaz e o jogariam no mar, dos marujos que antes não se importavam, dos escravos, que viam esperança no casal, e nos piratas que também esquartejariam o rapaz e o jogariam ao mar, mas sabe-se deus o que fariam com a menina. Todos tocados e emocionados, pela cena de amor e esperança que vinha do rapaz de coração forte e alma humilde, que arriscava tudo por amor a família, e da menina corajosa que agüentava tudo o que uma criança de apenas quatorze anos não deveria ter de suportar. Izabel nem palavras tinha mais para falar, e apenas aplaudia com todos, deixando o rio correr e aproveitando cada suspiro a mais que possuía. Por fim, Bento da Caveira Vermelha deixou um sorriso se espalhar sobre seu rosto e acenou a cabeça afirmativamente, num sinal de respeito. Em seguida, ele bradou:
- Pois então! Vejo verdade em tuas palavras rapaz - E se um especialista em farsas como Bento dizia isso, era algo a se considerar – E te darei minha benção! Antes, iria apenas cortar teu pescoço e te jogar ao mar, ou mesmo te jogaria para ver os tubarões te comendo vivo, ou você se afogando. Mas agora! Agora te dou uma escolha garoto! A escolha que daria a tua irmã, pois tratarei vocês como iguais aqui! Então, tu prefere te tornar um dos meus homens, servindo no meu navio, ou prefere ter a garganta cortada aqui e agora?
O barulho de vários “oh” se espalharam pelo convés do Melindroso (até mesmo entre os piratas) e mostraram as pessoas que se ele dava apenas aquelas opções à menina que todos tomaram como sua favorita, imagine o que daria como escolha aos nobres presentes que ele odiava cada vez mais?
- Mas capitão! Apenas duas escolhas! E a vida de pirataria para uma menina? O que ela poderia fazer? – Continuou Josh, vendo suas chances minguarem.
- Servir ao navio como puder servir, é claro! Lavar, cozinhar, matar, o que puder quiser ou souber fazer! – Bradou o capitão, e logo os “oh” dos nobres viraram “meu deus!” e os dos piratas tornaram-se “Hah!”. Izabel tremeu e viu que a vida daquela menina poderia ser quase tão ruim quanto àquela com os nobres!
- Mas capitão! – começou Josh, com a mente a mil – O senhor oferece uma vida de mulher a uma garota mal saída do berço – e, com todo o respeito que se pode ter por uma donzela, embora “mal saísse do berço”, Sarah já começava a se delinear em uma bela mulher, com coxas delineadas e torneadas, e um busto proeminente. Certamente seria uma belíssima mulher! – Mas, como poderia isso ser bom para ela, que deveria ter uma vida simples e honrada? – e pegou um punhal de um bucaneiro, gesto que todos os piratas do Serpente Marinha acompanharam com um novo puxar de espadas, acalmados por um gesto do capitão. E então, Josh simplesmente jogou o punhal longe, para trás, sem nem mesmo olhar onde jogava. – E, como alternativa, oferece uma simples degola?! Aqui mesmo, na frente de todos, planejava matar esta pobre e linda criança – disse isso pegando outro punhal de outro bucaneiro, e novamente jogando a peça para trás, quase no mesmo sentido e direção que jogou a adaga anterior. Izabel, curiosa, olhou discretamente para trás e quase ficou em choque por compreender todo o movimento, do começo ao fim. Aquele garoto era mesmo diabólico!
- Como pode, um homem tão honrado, fazer uma proposta dessas? Afinal não nos oferece chance de sobrevivência! E...
- Pois bem, seu rato imundo! Então, dou ainda uma terceira alternativa! – disse já irritado, e voltando a si do mundinho que o garoto criou para ele, puxando sua espada, e sendo imitado por sua tripulação mais uma vez – Já que se importa tanto com o sofrimento da menina conosco, e a ligação de vocês é tão forte, ofereço uma morte rápida a vocês dois. Então, caso tenham tido uma vida tão virtuosa e sofrida como afirma, gozarão de um prêmio sem precedentes no próximo mundo, e viverão juntos para sempre! Então garoto, que prefere? Morte rápida e vida para a mocinha, ou uma lenta e terrível morte nas entranh...
- Sei, sei, afogamento, blábláblá, morte horrível – disse um Josh apressado, se aproximando de Sarah, que permanecia calada e assustada com seu destino. – Entendemos senhor do cavalo marinho! – Disse Josh numa reverência.
- Cavalo marinho! Que cavalo marinho! Aquilo é uma serpente seu maldito! Uma serpente! – Disse Bento, perdendo a paciência e puxando a espada.
- Ahn, mas realmente se parece com um cavalo marinho, não? Quer dizer, sabe, o focinho, o peito e tudo... – Josh já se encaminhava com a menina de costas na prancha, e estava nervoso, e como sempre, quando nervoso, começava a falar bobagens.
- Podes me insultar verme! Mas meu barco não! Minha tripulação não! Meus companheiros não!!!! – E novamente todos os bucaneiros do Serpente marinha puxaram suas armas, desta vez não sendo repreendidos.
- Mas é um cavalo marinho bonito! – Quem falou dessa vez, foi Sarah, para surpresa de todos. E neste momento, mais uma coisa surpreendeu a todos.
O barulho de algo grande caindo no mar fez com que todos olhassem para trás e vissem que Izabel tentava controlar a descida de um bote para a água, e que foi bem-sucedida, pois o bote não estava em pedaços ao cair no mar. Porém todos os piratas se voltaram contra ela e contra o casal que estava quase no fim da prancha, e se deram conta que as cordas do bote estavam quase cortadas. A mulher não tinha lâminas com ela, e alguns segundos foram necessários para Bento cogitar sobre isso ter sido obra dos dois afiados punhais que Josh jogara para trás sem nem mesmo olhar onde. As habilidades daquele garoto pareciam não ter fim, e cada vez mais se assustavam com o que ele, em um curto espaço de tempo, podia fazer.
- Seu cão! Vou arrancar suas tripas fora, junto com os dessa fedelha!
- Meu capitão! Mas se me rasgar agora vai perder isto – e mostrou o mapa que furtara dos bolsos do capitão.
Bento congelou onde estava, mas seus comandados não. Não viam problema nenhum em seu capitão perder um mero pedaço de papel, e seguiram mais alguns passos em direção ao casal, mas congelaram ao ouvir a ordem de seu capitão.
“PAREM!”
No rosto do homem havia uma interessante mistura de choque, raiva e pavor. Tentou articular algo contra o jovem, mas nada conseguiu dizer além de “Mas... Quando você...”. Por fim, recuperou um pouco da cor das faces, e conseguiu dizer:
- Garoto. Vou dar uma chance para você. Dê-me este papel. Dê-me agora, e eu pensarei em matá-lo rápido e de forma indolor. Mas atreva-se a sair deste navio, e não tenha dúvidas, explodirei o bote de vocês à balas de canhão tão rápido que não terão a menos chance nem mesmo de se afastar. E juro pelos deuses, matarei você de uma maneira tão agonizante e lenta que irá implorar por um tiro na cabeça!
- Hm! Parece então que o mapa é importante, não é capitão? Afinal, é isso aqui não é, um mapa?
Certamente você pode se perguntar “mas por que diabos um capitão mantinha um mapa dessa importância com ele, e não trancado numa sala de mapas?”. Bem, Bento, bom do jeito que era, e paranóico como estava, certamente acreditava ser mais fácil roubarem o mapa de uma sala trancada longe de seus olhos do que de seu bolso, o que não deixava de ter um fundo de realidade. Aquele mapa era inestimável, pois era verdadeiro, e sem ele, perder-se-ia todo o esforço que fizera até ali, como capitão. Portanto tinha que estar em posse dele em todos os momentos. Perto de suas mãos e olhos treinados e vigilantes.
E ali estava o valioso mapa, nas mãos de um verme insignificante.
Por bem da verdade, devemos ter em mente que Josh não procurou pelo mapa nos bolsos do capitão pirata. Simplesmente vasculhou em seus bolsos por alguma arma, como um punhal, para poder usar caso precisasse, como era o momento, mas o capitão parecia usar apenas seus sabres para o combate, e nada mais. Terminou apenas encontrando o papel escondido, e ele só usara o mapa por que estava desesperado, e afinal, se um mapa estava no bolso do capitão, e não numa sala de mapas, era por que devia ser importante, certo?
No entanto, Bento demonstrou sua famosa e terrível rapidez, e chegou perto do casal antes que eles pudessem pular no mar. Lançou um ataque com sua espada contra Josh, porém, cego de fúria, não viu que a menina estava na direção do ataque. Ela certamente teria sua vida perdida se Josh não a tivesse tirado da frente do ataque, e assim levado um corte feio nas costas. Agora Bento os tinha a sua mercê. Apenas uma estocada e mataria os dois de uma vez só.
Não haviam mais cartadas. Josh poderia até se jogar no mar com a menina, e chegar até o bote, mas seria uma questão de minutos do navio alcançá-los com um vento noroeste que batia, cada vez mais forte sobre eles, isto se simplesmente não escolhessem disparar a vontade com seus canhões contra o bote, que seria presa fácil. Se por acaso se jogasse sem a menina talvez fosse até um pouco mais longe, e sobreviveria se acontecesse uma mudança de vento repentina, mas olhando para a garota e para a governanta de olhos desesperados, cercada por piratas tentando proteger a própria vida, soube que não faria isso. Portanto, agora não podia fazer mais nada. Apenas rezar.
Pois apenas um milagre poderia salvá-los.
Um milagre...
Ou uma catástrofe!
Bem, às vezes dos demônios ouvem suas preces primeiro.
BRUM! Ouviu-se o barulho enquanto o barco tremia. Deviam ter batido em alguma coisa, pensaram todos por um momento. Mas o momento passou, e todos entenderam que isso era impossível, pois os barcos estavam parados e ancorados. Não podiam ter batido em alguma coisa. Alguma coisa é que havia batido neles.
Bento não havia tirado os olhos de Josh e da pequena Sarah, mas chamou por seu imediato::
- Golias! Que aconteceu? Reportagem!
- Não sabemos capitão! Não vejo nada e... – Respondeu Golias, mas sua voz morreu no meio do aviso. Um barulho de águas sendo revolvidas, e de madeira sendo comprimida começou, mas Bento ainda assim não tirou os olhos do casal, por receio que tentassem pular para a água e escapar.
- Golias! Que ouve! Que ouve!
Olhou novamente para o casal, e só aí, percebeu o olhar aterrorizado da menina, enquanto um desconcertado estampava o rosto de Josh, que parecia estar lembrando de uma piada mórbida, mas engraçada, daquelas que não devem ser contadas em funerais.
- Você está brincando, certo cavalo marinho?
Bento não entendeu a provocação gratuita as portas da morte, e berrou, no meio do barulho crescente. Algo estava errado com o barco. Mas o que lhe importava era apenas a morte daquele fedelho!
- Serpente! SERPENTE! EU SOU O CAPITÃO DO SERPENTE MARINHA!
- Ah, não. Aquilo ali é uma serpente!
A mente de Bento registrou apenas alguns milésimos de segundo aquela informação, e virou-se abruptamente. E finalmente entendeu o porquê do silêncio de todos, tripulação, nobres e piratas.
Uma terrível criatura, assemelhada a uma serpente e com uma cabeça dracônica, mas de corpo colossal, mais robusto até mesmo que o maior dos mastros do Serpente Marinha, se erguia dos mares. Uma boca enorme e visceral se abriu, para muito além do que se poderia imaginar, se prolongando pelo corpo serpentino. Parecia poder engolir três homens inteiros ao mesmo tempo, e tinha dentes o suficiente para estripá-los em instantes. Uma criatura vinda diretamente do inferno das águas, terror de todos que se aventuravam nos mares.
Uma Verdadeira Serpente Marinha estava a encarar o navio.
Todos vidraram. Ninguém conseguiu se mexer por um tempo, exceto o jovem casal, recém formados “irmãos”, que pularam na água abraçados, e rumaram na água rumo ao bote. Ninguém conseguiu dar mais que uma respiração ante a criatura pavorosa que se erguia ante os navios e escancarava uma boca impossível de ser imaginada se não nos mais terríveis pesadelos, exceto a governanta que tanto amara a menina e agradecia aquele desconhecido rapaz, que nem sabia o nome, enquanto jogava os remos para o bote. Ninguém conseguiu sequer pensar em nada além de despedidas para a vida que teve até o momento, pois de uma maneira ou de outra, esta teria fim.
Ninguém fez nada.
Até Bento da Caveira Vermelha berrar: “Postos de BataAAlha!”
E assim, a serpente atacou.
E foi uma catástrofe.
O casal de jovens ainda olhou para o barco, buscando a ex-empregada dos ex-lordes Cecee (agora na função de alimento para criaturas marinhas) Izabel, mas esta apenas acenou para que eles partissem, e sumiu no caos de fogo, fumaça e sangue que se tornou a guerra entre os dois barcos e o monstro colossal. Sarah ainda tentou espernear e voltar para ir buscá-la, berrando seu nome enquanto subiam no bote, mas Josh a manteve segura, e remou o mais rápido que pode dali.
Nesse dia, uma lenda sumia no mar. O Serpente Marinha sumia sem deixar rastros, ao lutar contra outra Serpente Marinha, que deveria existir apenas em histórias. Se não estivessem atracados a outro barco até teriam chances, pois estariam mais livres para manobrar e melhor preparados para guerrear. Mas pegos desprevenidos como foram, eram alvos fáceis. Alguns bucaneiros sobreviveram, mas ninguém os encontrou nem os prendeu. Desde então, ninguém soube mais nada sobre o capitão Bento da Caveira Vermelha. Nem encontraram sinais de uma corajosa ex-empregada, chamada Izabel. Seus corpos nunca foram encontrados. A serpente simplesmente sumiu como apareceu. Sem nenhum sinal de existência. Como se fosse uma terrível alucinação. Mas o sangue dos mortos comprovava a sua existência.
A maioria dos nobres que lá estavam morreram. Da dúzia que sobrou, todos foram presos pela milícia que os esperava em suas casas, acusados de escravismo e barbárie contra seres humanos. Ninguém soube quem fez a denúncia. Dizem que uma carta anônima foi enviada de um condado próximo.
E no mesmo dia, sem que ninguém ainda soubesse, uma nova lenda nascia.
- E então, o que você acha? – Perguntou Josh, ainda sentado no bote içado até a praia.
- Você quer ser um herói? – Replicou a princesinha, que inadvertidamente fora salva pelo ladrão. A luz do sol que se punha no horizonte iluminava seu rosto belamente.
- Sim. Quero. Decidi ontem.
- Hm. Certo. Então eu quero ser um herói também! – disse a menina levantando os braços e mostrando uma confiança rara de se achar nas pessoas de hoje em dia. Comemorava o fato das correntes não mais prenderem seus braços e pescoço. Ninguém mais além daqueles dois sabiam do terrível passado pelo que ela passara, nem o que poderia ter ocorrido de sua vida. Era um novo nascimento para aquela garota.
- Você não pode ser um herói sua boba, por que você é uma menina! – Disse Josh, de uma maneira um tanto infantil.
- Então eu posso ser o que? – Perguntou Sarah, emburrada
- Você pode ser uma princesa! Sarah é um bom nome pra princesa! “Princesa Sarah” Só falta um cavalo de fogo aqui, e está completo! – Caçoou Josh.
- Hein?
- Nada não. – Riu-se Josh.
- Nah, não, não quero ser princesa. Se o problema for o nome, também não quero ser Sarah. – Replicou a menina, se sentando no chão da praia, sem se preocupar com o moído vestido que usava.
- É? E qual o nome que você quer ter então?
- Eu quero ser forte e lutadora que nem a tia bel. Então, eu vou ter o nome dela! Izabel!
Izabel. Era o nome da governanta que batalhou para que a menina vivesse e sobrevivesse. Sarah contou as histórias que as duas passaram juntas, e Josh teve certeza de que era um nome de uma mulher lutadora.
- Pois bem. Então está bem. Eu te chamo de Izabel. E você não será mais uma princesa. Vai ser agora uma heroína!
- Ebaaaa!
E assim Sarah desapareceu, e uma guerreira chamada Izabel tomou o seu lugar. E naquele dia, dois heróis de futuras lendas nasceram.
Izabel das lâminas, e Josh, o Vermelho.
E com um mapa mofado e carcomido, que um esquecido Josh não atinara de jogar fora, este casal estava prestes a mudar todo um mundo.
E encontrar o Ultimo dos Mares!
_____________________________________________________________________________________
Este é o fim do primeiro capítulo. Mas não se enganem, pois muito mais aventura, magia, fantasia e emoção aguardam adiante. Novas ameaças espreitam adiante, e esperam para devorar todos os sonhos e esperanças. Mas também haverão aliados que se unirão à jornada, e um antigo portão de maravilhas será aberto.
Una-se a Josh, O Vermelho, e Izabel das Lâminas, numa aventura que mudará os rumos de todo um mundo. Explore reinos, invada masmorras, derrote monstros e combata bruxas e o Mal dos Males.
E por fim, siga com eles até O Último Mar.
Onde todos os tesouros perdidos vão parar.
E tudo o que aguarda com eles.
Boa aventura. E levante as velas marujo!
Um comentário:
Adorei!
Pena que Izabel morreu... achei que ela fosse ser uma das personagens prinicipais!
Mas achei realmente ótimo!
Aguardo as cenas do próximo capítulo!
Postar um comentário