II
Bento da Caveira Vermelha entrou no Melindroso quando o barco já estava tomado. Não que se negasse a combate quando invadiam algum navio, mas simplesmente não havia tido tempo para tal. Entre a ameaça do Serpente Marinha, a invasão do barco e a tomada do navio, não haviam passado nem cinco minutos. Este detalhe não foi deixado de lado pelo capitão, que deixava claro seu desprezo em seu rosto macilento.
Um marujo mais corajoso (ou menos são) aproveitou a solenidade da entrada para se jogar contra ele com sua espada em punho. O capitão não se deu ao trabalho de tirar sua espada para se defender. Simplesmente saiu da frente, deixando com que passasse como um touro confuso, e se utilizando do ímpeto da investida do homem agarrou sua mão com a espada, o fez girar sobre si mesmo e cair de costas no chão, e cravou a espada que seu atacante segurava em sua garganta. Mais dois marujos, ensandecidos pela certeza de uma morte indigna, se lançaram em ataques desesperados contra o capitão, e nenhum pirata interferiu, estranhamente. Bento se esquivou do ataque do primeiro, e quando o segundo baixava sua lâmina contra ele, simplesmente agarrou o braço do primeiro homem e o usou para bloquear o ataque da lâmina. Um dos homens caiu no chão com sangue jorrando do toco onde antes havia um braço. Seu companheiro, horrorizado pelo que havia feito, não fez nem menção a se defender quando Bento, usando o antebraço decepado como cabo para a espada que este segurava, cortou-lhe o pescoço. Aparentemente a onda de insanidade terminou depois desta temerosa demonstração de habilidade e sangue frio. Bento largou calmamente o antebraço do marujo anônimo que morria com a perda de sangue aos seus pés, e andou calmamente para o centro do convés. Por fim, falou, como se nada disso houvesse ocorrido.
- Então, eis um novo butim. Hm. Onde está o capitão deste navio? – Perguntou, da forma mais polida que um pirata assassino famoso e perigoso poderia perguntar a um marujo que lhe pareceu de patente mais alta, pois pelo menos não vibrava de tanto tremer na sua frente.
- Ah, ah, ali, vossa excelência. – O marujo nem notou, mas usava tratamento superior para com o pirata.
O capitão do navio, num ato de superior covardia para um homem do mar, estava escondido embaixo de uma mesa grossa de madeira que antes servia de passarela para aqueles que estavam no navio e não eram piratas, nem marujos, nem serviçais nem nobres. Junto com ele, outros seis homens que não honravam suas calças tremiam e se urinavam com os olhos fechados, enquanto pediam clemência a piratas imaginários.
- Pois bem senhores. O que temos aqui han? Capitão, faria a gentileza de me informar que tipo de navio é este? – Perguntou Bento, quase sussurrando, esperando ouvir uma resposta que sabia não poder agradá-lo.
- Ahn. Bem, excelentíssimo senhor Caveira Vermelha, o que vê aqui é simplesmente um navio a passeio, e como vê, não temos muitos recursos, nem transportamos nada, e estamos até mesmo perto da costa e...
- Silêncio, verme! – Sibilou Bento, irritado com a bajulação e enrolação inútil vindo daquele covarde. Há muito havia discernido como identificar marujos, nobres, fidalgos, contadores, vermes e sofredores. E ali naquele navio, ele identificava todas essas classes. Portanto não era apenas um passeio que acontecia naquele barco, longe da vista da milícia do condado – Agora vamos – continuou com uma voz aveludada e agradável, como a de um tio que pede um favor cansativo ao sobrinho mais próximo – e me diga, o que realmente faziam aqui!
O capitão do Melindroso, sentindo a fúria do terrível pirata, sentiu-se obrigado a dizer a vergonha do que estava sendo feito naquele local. Mas não se sentia tentado a dizer toda ela.
- Escravos senhor. Aqui vendemos escravos.
Bento inspirou fundo ao ouvir a verdade. Ele mesmo fora um, antes de ascender no mundo negro da pirataria, e detestava aquele mercado. Na realidade, a escravidão era terminantemente proibida no reino de Mecina, e na maior parte do continente de Sona, e mesmo os locais onde a permitiam já começavam a ceder sob a pressão dos reinos contrários. O que aqueles nobres faziam ali era extremamente proibido, e tinha ódio por parte de Bento. Mesmo que o contrabando de escravos fosse extremamente lucrativo, os princípios de Bento eram mais fortes. E ele sempre preferia degolar todos seus prisioneiro à vendê-los como escravos. Não que alguns prisioneiros se importassem em viver a escravidão à morte, mas um homem deve viver sob suas crenças, não é verdade?
- Escravos? – Perguntou para o vento, deixando a notícia se espalhar entre seus marujos, que repudiavam tanto quanto o capitão o ato, enquanto segurava o maxilar do capitão daquela escuna podre – ESCRAVOS! E ainda se dizem homens? Hah! São cachorros imundos, isso sim! Deveria degolar a todos, e deixar para os urubus! Mesmo fazer isso me parece indigno, pois os urubus provavelmente morreriam com a carne podre de vocês na barriga! Pois então malditos, eu...
- Capitão – Chamou seu primeiro imediato.
Bento parou seu discurso, pois quando Golias, primeiro imediato do navio, um negro imenso e musculoso que acompanhou bento desde seu primeiro porto até o posto de capitão sem jamais traí-lo, queria falar e interromper um discurso de fúria seu, o assunto era digno de ser ouvido! Deixou que seu primeiro imediato se aproximasse e falasse em particular.
- Capitão. Eles dizem que aqui se fazia negócios de escravos, mas aqui só tem mulheres, crianças e jovens ou velhos fracos meu capitão. Nenhum desses daria um escravo que preste senhor – Pois escravos eram principalmente para serviços tão pesados e sujos que ninguém mais faria, nem mesmo bem pago – Tem alguma coisa a mais aqui. Sinto isso.
Bento, confiando no instinto de seu imediato, tratou de investigar cada rosto cabisbaixo que estava naquele navio e tremia de medo, perante o pirata, mas também perante algo que não era ele, e que não conseguia identificar. Começou a olhar papeis espalhados em mesas presas no convés, quando achou o que procurava.
Pergaminhos e mais pergaminhos detalhavam informações dos escravos que lá estavam, identificando várias informações, mas principalmente dados que não se procura saber quando se compra um escravo. Alguns diziam respeito ao tipo de sangue do escravo e o que podia se curar com ele, outros a órgão específicos que se diziam mais fortes em alguns que outros, alguns tratavam de informações sobre áreas sexuais e como fazer um transplante seguro, ou como se satisfazer corretamente sem a necessidade da excitação do outro. Contratos, receitas, desenhos, tudo estava ali.
- Mas que m...
E Bento descobriu que estava no meio de uma feira de corpos.
A raiva que antes lhe dominava se transformou instantaneamente em repulsa. Ódio. Queimaria cada um daqueles imprestáveis vivos! Era uma abominação! Tinha que confirmar, mas marujo nenhum admitiria isso para ele, pois sabia o que lhes esperava com a confirmação da suspeita. Não que importasse. Torturaria rapidamente o primeiro pobre diabo que passasse a vista, e confirmaria suas suspeitas.
Respirando pesado, olhou para todos no barco, buscando sua vítima, porém, antes que a encontrasse se surpreendeu com um olhar firme sobre si. Era uma menina, pretendente a princesinha a julgar pelas roupas, que não tinha medo em seus olhos. Talvez uma leve curiosidade, nada mais que isso. Andou em direção a garota que o fitava despreocupadamente, curioso por tal despeito a sua figura de terror. Aliás, as únicas pessoas em todo aquele navio que o encaravam eram aquela menina, e sua serviçal que a acompanhava e velava com um abraço. Chegou a pensar por um instante que era uma fidalga, e estava confuso sobre o que poderia estar fazendo ali, sendo tão nova, mas logo raciocinou direito. Havia um belo e discreto grilhão nos braços e pescoço da menina, e de mesma forma estava a sua babá. Ambas eram escravas do mesmo lote. Escravas de luxo.
Bento estremeceu só de pensar com que intenção os que estavam ali comprariam a menina.
Caminhou calmamente em direção à princesinha, mas antes que se aproximasse demais, a babá rapidamente atingiu um pirata mais próximo com o cotovelo e, mesmo com as mãos em correntes, lhe roubou a espada. Bento parou surpreso com a iniciativa da mulher, mas os outros bucaneiros apenas riram da inépcia do bucaneiro assaltado. Este, mais surpreso que qualquer um, pôs-se a rir também, e se virou para a mulher.
- Vamos vadia, me dê esta espada, ou vai acabar se machucando de verdade!
- Dê apenas mais um passo seu porco, e será estripado!
Mais marujos riram da resposta mal criada da moça para um pirata perverso, e o marujo insultado perdeu a paciência e se jogou contra a donzela, imaginando como ensinaria a maldita alguma educação. Este foi seu ultimo pensamento antes de ter o peito aberto pela própria espada. Morreu tão rápido que mal assimilou o que aconteceu. Os seus companheiros de navio ficaram boquiabertos, e o próprio Bento teve que admitir que bom movimento foi aquele. Dois bucaneiros chegaram de ambos os lados, e tentaram atacar a mulher, mas tiveram seus ataques repelidos com mais força do que julgariam ter aqueles traços finos de governanta de luxo, e escaparam por pouco de ter as gargantas abertas. Se aquela mulher não estivesse acorrentada, certamente teria sido diferente.
- Izabel! – Gritaram aterrorizados os Lordes Cecee, que nunca puderam imaginar o quão mortífera aquela governanta poderia ser. Bento assimilou aquele nome com um sorriso.
- Temos aqui uma mulher forte! Gosto disso! Respeito isso!
“Não se aproxime!” Gritou a mulher, mas Bento se limitou da dar uma pequena gargalhada. Apenas aquele gesto, depois de ver quão boa era a mulher com uma lâmina, deixou a alma da babá, Izabel, apreensiva. Bento deu mais um passo para frente, tirando sua própria espada da bainha, e Izabel se pôs na defensiva. Ninguém se mexia.
- Vai apostar contra mim mulher? Pois saiba que eu jogo muito bem, heh heh...
E sem nenhum aviso atacou. Izabel bloqueou sua espada uma, duas vezes, mas a terceira vez trouxe Bento para muito perto, e este segurou o punho de sua espada. Ela havia perdido aquela.
- Belo jogo de cintura, senhorita. Só por respeito não irei matá-la aqui, imediatamente – Sussurrou Bento para a Izabel. Esta, reconhecendo sua derrota, largou o punho da espada, e fez uma face resoluta, esperando seu destino. No entanto, Bento a ignorou completamente (exceto por um olhar maroto) e dirigiu-se a menina que a babá guardava.
- Garota, qual seu nome? - Falou amável
- Sarah – Disse sem nenhum traço de timidez na voz.
- Me diga e diga de uma vez! O que estavam a vender aqui! O que iam vender antes que eu chegasse! – Perguntou como um pai orgulhoso e preocupado perguntaria a seu filho.
A menina, de talvez uns quatorze anos, vestia um belo vestido dourado com uma tiara delicada lhe adornado os cabelos. Poderia se passar por nobre em outros momentos, se não tivesse sobre ela uma pequena corrente vermelha em seu pescoço e braços, indicando que a mesma era uma escrava de luxo. Tinha espantosos olhos cor de mel, que se fixaram diretamente nos olhos do capitão, e não respondeu. Não era medo que havia em sua expressão. Era um pouco mais do que curiosidade de saber quem era aquela estranha criatura que se prostrava diante dela. Mas antes que ela pudesse responder, a serviçal, uma bela loira de olhos azuis e pele branca e sedosa, sem mais do que vinte anos, aparentemente no encargo daquela criança, respondeu, aos berros de fúria e lágrimas.
- Seu corpo! Iam vender seu corpo para fazerem o que quiserem com ela! Experimentos, cortes, torturas, o que quisessem! Essa escória a estava se utilizando da menina como um objeto!
Havia alma na voz daquela mulher. Fúria contida que conseguia ter uma chance de ser extravasada naquele momento. O pirata enxergou a governanta, e viu seu rosto marcado por machucados escondidos por boa maquiagem. Num entendimento de alma, soube que havia sido espancada ao defender a garotinha de um destino pior. Sua alma se incendiou.
- Izabel! O que esta dizendo! Está louca, a pobre... – Começou a ladainha lorde Cecee, dono da governanta e da criança, mas foi interrompido bruscamente.
- Seus VERMES! – Bradou o capitão, com a fúria explodindo em sua alma. Pois se antes apenas ameaçara degolar todos os responsáveis pela feira, apenas para amealhar mais pedaços de suas riquezas que possuíssem no momento, para depois deixá-los soltos a deriva até algum navio viesse buscá-los, agora com certeza seria ele mesmo, Capitão Bento da Caveira Vermelha, que degolaria cada um daqueles patifes nojentos, e despejaria seu sangue no convés, antes de atear fogo no navio com o que sobrasse dos sobreviventes vivos e desejando por uma morte rápida e clemente! Apenas neste momento que a garotinha começou a demonstrar algum receio do capitão, vendo fúria tão avassaladora.
Andou decidido até seu imediato, com os olhares de todos os presente sobre ele, querendo saber qual seria o destino dos navegantes do Melindroso, quando ouviu um barulho repentino vindo de um grande barril ao seu lado. Instintivamente, sentindo uma presença perigosa, desembainhou a lâmina de seu sabre e perfurou o barril no meio tão rápido que só notaram sua espada se embainhar novamente, retirando-a novamente para decapitar o topo do barril.
Por um momento todos imaginaram que o capitão havia perdido a cabeça e estava extravasando sua raiva. Mas no momento seguinte, um moreno magro, de bom físico, saiu de dentro do baú, inspirando o mais fundo possível, e assustando a todos os presentes na cena.
- Eles... Não colocam... Buracos... Nos Barris! – Falava entrecortando entre uma respiração e outra, quase asfixiado. Na realidade, se não fosse pelo Capitão Bento, Josh Kallahow provavelmente estaria morto no baú, asfixiado, enquanto o navio pegava fogo. Todos olhavam para aquele garoto como se ele fosse louco, o que de fato deveria ser, para estar dentro de um baú, aparentemente esperando que nele fosse feito um furo para que pudesse respirar.
O silêncio do choque foi quebrado pelo capitão do Serpente Marinha.
- Haaah, mas o que temos aqui! – Bradou como um ogro o capitão da caveira vermelha. Caminhou com suas vestes rubras no convés do navio que tão rápido dominou (tanto que nem tomou aquilo como um assalto, mas sim como “brincadeira de criança”) exibindo o porte avantajado e pinturas exóticas no rosto. Mas sua característica mais marcante, embora nunca nenhum de seus comandados admitisse isso a quem quer que fosse, era seu nariz anormalmente grande, em forma de bico, que traria tom jocoso a um homem como Bento, se este não fosse tão terrível e sanguinário. Mas que diziam pelas suas costas que se puxasse o ar mais forte, mataria todos os seus oponentes asfixiados, ah, isso diziam – se não é um roedor escondido nos barris! Um invasor antes de nós! Temos um pirata do acaso, não temos homens?
“HUUUUH” gritaram aproximadamente quarenta homens, malditos até os ossos, tripulantes de um dos mais famosos e temidos navios que singravam os mares de Micina, o Serpente Marinha, que neste momento abalroava o nobre, porém indefeso Melindroso, que servia de palco para negócios escusos de nobres aparentemente respeitáveis. Todas as famílias que ali se encontravam, cada uma antes ricamente adornadas antes que os piratas começassem suas revistas por riquezas, estavam lívidas de surpresa e terror, pois o que antes parecia apenas mais uma tarde de negócios exóticos terminaria como uma tragédia, senão uma carnificina, nas mãos daqueles seres ordinários. Cada fidalgo respirava seu fôlego como se fosse o último, e certamente estavam quase todos certos.
- Han... Desculpe aqui a minha indiscrição mas... Por acaso, quem seria o senhor? – Perguntou Josh Kallahow, surpreendendo a todos, por sua petulância de abrir a boca numa situação tão delicada, pois tanto os detentores legais do barco quanto os atuais donos tinham por intenção jogá-lo retalhado ao mar, como por não saber quem era o temível pirata a sua frente.
- Então, está dizendo que não conhece a mim? – indagou o capitão Bento, num tom humorado, mas que revelava uma indisposição a qualquer nova brincadeira do garoto.
- Bem! Não! Não conheço mesmo. Quer dizer, eu acho que o nome “Capitão Papagaio” seria fácil de ser lembrado, mas realmente não conheço nenhum capitão com um nome desses...
Pego de surpresa, Bento nem conseguiu imaginar uma resposta a altura do comentário. Mesmo o ato de simplesmente matá-lo imediatamente não surgiu em sua cabeça, pois estava surpreso devido a tal indiferença que foi tratado, muito menos a referências ao seu nariz proeminente. Nunca mesmo, viu alguém se portar daquela maneira as portas da morte. Seus tripulantes, tão surpresos quanto o capitão, apertaram a boca para rir, pois sabiam que se o fizessem perderiam a garganta para respirar. Outros tripulantes do Melindroso não eram assim tão respeitosos e, mesmo diante da morte não conseguiram resistir ao riso abafado “pfffttt”.
- Mas, falando francamente, talvez vocês usem um nome mais sonoro, certo? Tipo, Abutre? “Capitão Abutre” eeehnn... Soa bem carniceiro... E combina com o senhor, diga-se de passagem...
O choque continuava e cada vez mais tripulantes começavam a perder o respeito diante da tropa de sanguinários que ocupava o convés. Mais e mais risadinhas, e uma ou outra risada bem formada, se espalhavam entre os reféns.
- Mas ainda assim eu me lembraria, sabe? Pois vocês devem ser invencíveis! Quer dizer, mesmo sem vento, é só o capitão aqui dar uma espirrada, e vocês devem DOBRAR a velocidade ...
Se antes alguns escondiam, outros não conseguiam mais, sendo que até um marujo do Melindroso começou a se dobrar no esforço de não rir na cara do capitão.
- E eu imagino a bandeira de vocês, sabe. Não da pra ver daqui, mas eu tenho CERTEZA que dever ser uma venta ENORME com uns ossos cruzados e...
Quando sua própria tripulação começou a sucumbir aos risos, Bento acordou da catarse que o dominava, e meteu um tiro bem no meio da testa do marujo do Melindroso que abandonou a compostura de vez e começara a quase gargalhar, assim, cessando com o clima bem humorado da contenda. Virou-se para o moleque que estava dependurado pela gola por seu imediato colossal, lhe acertou uma bela cabeçada e berrou ao seu ouvido:
- Então não conhece o próprio diabo em pessoa, Moleque?! pois aqui estou na sua frente, para conheçe-lo! sou bento da caveira vermelha seu maldito, o mestre do serpente marinha, e vou cozê-lo em suas tripas , assa-lo no fogo do inferno TEMPERADO EM FEZES, e pôr suas entranhas para sua mãe imunda comer junto aos CÃES, ENQUANTO CORTO AO MEIO TEU PAI MALDITO E ARRUINADO PARA TER O MESMO FIM! – O olhar de surpresa de Josh satisfez o pirata, que o segurava pela gola. Aqueles que conheciam bem Bento sabiam que ele podia mesmo fazer tudo aquilo, e sem dúvida faria com aquele moleque, depois de tanta afronta. Até mesmo os homens endurecidos e perigosos do Serpente Marinha tremeram ao ouvir o urro de seu capitão, enquanto os nobres e marujos do Melindroso chegavam a lacrimejar imaginando qual seria seu futuro nas mãos do terrível capitão. Os piratas iniciavam o seu brado de concordância quando Kallahow cortou.
- Bem, minha mãe morreu, e meu pai eu nem sei quem é, nem se é maldito e arruinado, então provavelmente não vai ter ninguém pra me comer. Exceto os cães, claro, mas eles não curtem carne magra, então devo dar um bom osso. Mas como você fala alto hein? Deve ser por isso que tem um nariz tão graaaaand...
“BAH” interrompeu o Caveira Vermelha, levantando o garoto e o jogando no chão duro do convés, desembainhando sua espada – VOU TE ENSINAR UMA LIÇÃO, FEDELHO!
Na realidade, Josh Kallahow nunca havia ouvido histórias do mar, ou mesmo se interessou por elas, pois nunca fora de seu feitio tal coisa. Havia apenas algumas semanas que decidiu abandonar aquele condado que vivera a vida toda, e apenas dois dias que decidiu entrar num barco por toda a sua vida. Portanto, no que lhe constavam de conhecimentos, só sabia sobre o mar ser um lago enorme, maior que qualquer outro, e salgado, e possuía seres enormes, e monstros, e piratas. Nunca ouvira falar de um pirata específico, mesmo o mais terrível daquelas bandas, o Caveira Vermelha.
E assim começou a caçada de Bento da Caveira Vermelha por Josh Kallahow no convés do Melindroso.
- Haaaah! – Estocou com fúria descuidada o Caveira Vermelha. No entanto seu golpe foi esquivado por Josh numa distância de milímetros – Opa! – Exclamou Josh.
Novamente surpreso, o capitão novamente arremeteu contra o garoto, que se esquivou do ataque por pouquíssimos centímetros. Via-se o esforço sobre humano que Josh estava fazendo, mais ainda assim este continuava a agir como se estivesse apenas numa brincadeira, e não prestes a perder a vida! Caveira atacou mais três vezes, com velocidade e destreza quase que sobre humana, mas ainda assim o que conseguiu foi apenas dar pequenos talhos na pele do maldito. Mesmo enferrujado como estava por não entrar em batalha há anos, não conseguia compreender tanta habilidade no garoto, ou como simplesmente não tinha medo na situação que estava. O sorriso não lhe saia do rosto. No último ataque, ainda ouviu dele:
- Hoe! Passou perto, hein?
Caveira, vendo sua autoridade minguar perante o rapaz que se esquivava de seus golpes e agindo como ele estivesse enfrentando uma criança, resolveu lutar realmente a sério. Retirando sua outra espada da bainha, começou a brandir as duas lâminas contra Josh que, embora com a folga de apenas alguns milimetros, ainda se desviava das lâminas, recebendo alguns pequenos cortes que não pareciam incomodá-lo. No entanto, chegou um momento quando Josh encontrou a parede da proa atrás de si
- Mas que b...
Antes que terminasse, Bento arremessou as duas lâminas contra Josh, que conseguiu erguer os braços a tempo, mas ficou com as mangas presas.
- Ooops!
- Ooops! – Repetiu em tom jocoso Caveira Vermelha, se aproximando. Tinha cansado alguma coisa contra o moleque, e mesmo que houvesse tempo que não entrasse numa luta de verdade, isso não servia para explicar como não conseguira matar o fedelho imediatamente. Era simplesmente um fato.
O maldito era bom.
E merecia uma honra.
- Então bastardinho, já que não importa tanto para você ser retalhado e mandado aos cães, vou mandar este teu couro imundo aos tubarões, e estes não vão se importar de devorar apenas teus ossos! A prancha!
E assim, Josh Kallahow, encontrado por piratas num navio nobre após um atol, andaria na prancha e morreria comido por tubarões se tivesse sorte, pois seria imediato, ou seria lentamente afogado no mar que encontraria seu fim.
E de longe, uma singela menininha e sua leal amiga e babá assistiram sorridentes o garoto maltrapilho sobreviver a tudo que lhe fora imposto, e tremeram quando a prancha foi chamada.
Um comentário:
rsrsrs
Muito interessante!
Por que será que acho que essa babá e menina não tem um papel tão secundário nessa história?!
Adorei! Pode postar a próxima parte... =)
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