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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

[CONTO] O Dia do Homem.



O homem se sentou em seu leito de sono, pés descalços e nú, embora roupa lhe cobrisse o corpo. Sabia que quando finalmente dormisse, não importava que pijama vestisse, que lençol o cobrisse ou que teto o guardasse, dentro de sí estaria nú. Era um pensamento filosófico, profundo e irrelevante comum aqueles que estavam prestes a dormir, mas afinal, somos todos humanos e não recusamos tais pensamentos.

Sentado, o homem pensou em suA madrugada, e nas lembranças que por bem da verdade não existiam. Era a única hora do Seu Dia em que não haviam arrependimentos. Não havia do que lembrar para se arrepender. Só havia o sentimento de perda, mas nem sabia do que. Não lembrava, mas sabia que havia tido carinho materno. Não poderia saber, mas entendia que devia ter tido orgulho paterno. Não compreendia como, mas aceitava que fora em sua manhã que tinha tido sua bebida mais deliciosa e gratificante; Ironicamente, leite.


Se espreguiçou e recordou dA manhã. Começara sem dúvida plena e pura. Lembrava, embora bem vagamente e com erros propositais das lembraças, das brincadeiras, sorrisos, choros, da inocência que temos na hora que o sol nos alcança o rosto. Mas em Seu Dia não havia tempo demais para brincadeira, portanto começou a trabalhar numa hora em que outros ainda estavam a se divertir. No meio do trabalho veio o estudo, no fim do estudo ainda havia o trabalho, e nenhuma brincadeira de criança, pois a inocência não tinha mais tanta graça assim. E assim sendo, antes do advento da tarde, já era homem, onde deveria ainda ser menino. Na hora, lembrava, havia rido e regozijado do momento. Mas agora, prestes a dormir, lá estava ele, imaginando se não teria sido melhor esperar um pouco mais, ter sido mais menino enquanto podia. Se fosse numa hora mais cedo, poderia culpar alguém. Mas já era noite, e o Homem sabia que culpar os outros era uma tolice reservadas aos com tempo de sobra.

Deitou lembrando dA tarde fora seu período mais conturbado, embora mais emocionante. O Trabalho, que já havia mudado algumas vezes desde a manhã, lhe cobrava o dia lá fora, o sopro do vento no rosto e a livre despreocupação. Os sonhos que haviam lhe embalado quando criança haviam sido esquecidos ao longo do dia, e mais e mais ele se contorcia de raiva e inveja daquelas poucas pessoas que não esqueciam dos seus, e corriam para realizá-los. Foi de tarde que começou a respirar mal, enxergar mal, usar óculos e fumar. Mas ainda assim, foi um período sublime, pois foi a tarde que ele conheçeu a Mulher. Lógico, mais cedo haviam existido garotas, e até no começo da tarde um amor, que terminada de maneira amarga. Mas a mulher, que passava sua tarde na mesma hora da dele (pois nem sempre sua tarde é a tarde dos outros) respirava bem, enxergava bem, sorria divinamente. E gostava de Rolling Stones, mas odiava Satisfaction. Eles vão mentir, dizer que não, mas foi a principal razão de se conheçerem no começo da tarde e passarem o resto dela juntos. E por conta de um desgosto em comum, se amaram a tarde inteira, brigando de vez em quando, se amando no resto do tempo, criando dois novos amanhecer no processo.

No entanto, no entardecer ela se foi.

No finalzinho do dia, começo da noite, um mal súbito, eles foram para o hospital. E lá ela adormeceu, não mais retornando para o Seu Dia. E o começo do anoitecer foi triste.

Bocejou pensando nO cair da noite se deu silencioso. Lógico, outras mulheres passaram ou quiseram passar em Seu Dia neste meio tempo, mas ninguém era a Mulher, ninguém seria, e ele nunca negou isso. Mas por mais que sua noite lhe fosse triste, ele sorria para aqueles em que o dia estava apenas começando, um dos quais se aproximava da tarde, e cuidava para que não esquecessem de seus sonhos, como ele o fez em sua manhã. E assim o fizeram, diminuindo um pouquinho da tristeza de sua noite, que passava rápido.

E assim chegou o momento que sentiu as primeiras pontadas de sono. No começo eram tímidas, mas se fortaleceram, e mais e mais, até que ele soube, embora nenhum especialista fosse necessário para lhe dizer isso, que estava chegando a sua hora de dormir.

O Homem estava lá, deitado, pálpebras pestanejando contra o sono. Lembrou de seu dia, mais e mais, detalhes que havia esquecido. E pensou: Valeu a pena? Afinal estes pensamentos nos afetam muito mais quando estamos para dormir. Mas antes de matutar demais sobre essas dúvidas, teve tempo de ver um último novo alvorecer. Não um que pertencesse a ele, mas sim dos descendentes de seu nome e sangue. Viu este raio de sol que lhe aqueceu a face, lhe trazendo o sorriso de sua Mulher.

Afinal, Seu Dia não fora perfeito. Mas não foi tão ruim assim.

P. A. Teixeira.

Um comentário:

Isabeau dos Anjos disse...

vc é jovem e consegue dar uma visão da vida de um homem.. no seu anoitecer... me comoveu profundamente, e posso dizer, pois já estou no meu entardecer! a visão simplista quase cabocla de uma vida.. da necessidade de caminhar e seguir.. mas com um toque de doçura e de apreensão do existir tão linda! eu me amarrei no texto. essas avaliações precisam ter outras formas de expressão! ;)