O cheiro de enxofre inundava suas narinas. Sentia o gosto do sal na boca. Só não sentia dor. Não tinha tempo pra dor não. Não agora.
Pois agora Ferreira corria.
“Corre cachorro, corre pra num virar sabão!” se ouvia na mata de espinhos. Mais gritos eram soltos, com apenas xingamentos, e mais uma vez eram ignorados. Ferreira corria, e corria, com apenas uma faca de degolar cabra na mão, vestido de couro da cabeça aos pés, passando pelos espinhos, que mais pareciam adagas prontas para perfurar os olhos do primeiro tolo que andasse sem se prevenir. “Ô Ferreiriiinhaaaa... Vem cá, vem molequinho! Vem e a gente deixa tua patroa viva! Vem que a gente já ta é arretado de te procurar!” Os policiais, não ambientados com aquela área, andavam em passos curtos, se rasgando e furando no meio daquele inferno marrom. Ferreira, no entanto, andava como se fosse feito de fumaça, não tomando conhecimento de nada daquelas dificuldades.
Havia se separado de seu grupo, e os homens que estavam com ele haviam morrido de tiros covardes dos milicos. Bando de macacos, como Ferreira também os chamava. Suas armas tinham caído sabe Deus onde. Só tinha a faca, inseparável. Foi uma perseguição insana e perigosa, mas após entrar naquele matagal denso e seco, Ferreira poderia fugir sem problemas, pois nunca que os policiais iriam conseguir alcançá-lo. Assim, poderia ir procurar Maria, que devia estar com o outro bando. Podia seguir em paz.
Mas Ferreira não acreditava em paz.
“Cadê ele, diabo!” Gritou um dos macacos. Os outros, como bons macacos, só souberam responder com barulhos inúteis. Aquele povo estava é perdido.
E assim que Ferreira notou isso, eles estavam perdidos de vez.
Antes eram treze. Depois do primeiro tiroteio sobraram onze. Até a mata, restavam sete.
“Vocês viram alguma coisa?” Perguntou um sargento pra ar, já que todos tinham se separado. Um momento depois um barulho de engasgo e baque surdo foi ouvido da direção que ele deveria estar.
E aí restavam seis.
“Carai Jorge, junta aqui!” Chamou um dos macacos para seu amigo que estava próximo.
“Diz Zé!” disse o Jorge.
“Tu ouvisse?” indagou Zé.
“O que?” perguntou Jorge antes de um grito ecoar naquela mata.
E restavam cinco.
“Junta todo mundo, junta todo mundo!” Gritou a voz do cabo. Jorge perguntou “Onde é que tas?”.
“Aqui, perto d... Ghhl...” Gemeu a voz do cabo. Depois, foi só grito. Dessa vez tinha sido caprichada!
Restavam quatro.
Zé e Jorge viram seus dois companheiros. Antes que Jorge gritasse, Zé lhe calou a boca. Não queria mais pegar o matador maldito. Queria sair daquela mata de espinho vivo! Acenou em silêncio para os dois outros homens, e estes entenderam, e vieram sem alarmar ninguém. Mas no meio do caminho, eis que uma mão aparece no meio do mato com uma pistola, e desfere um tiro na cabeça de um dos milicos.
Três!
“Cooorre!” Gritou Zé, virando de costas sem querer saber. Se jogou no caminho do mato de qualquer jeito, se furando e cortando, desesperado para sair daquele inferno. Pra fugir do capeta em forma de gente! O diabo em forma de homem!
As suas costas estavam Jorge e o terceiro macaco. Os dois estavam emparelhados atrás de Zé, quando Ferreira apareceu de novo.
Rápido como fogo em mata seca, pegou uma rama da mata cheia de espinhos, e bateu como se fosse um bastão. Jorge se feriu, mas o terceiro homem teve os olhos perfurados. Ferreira lhe deu um chute no saco e aproveitou ele se abaixar para lhe esfaquear pela parte de trás do pescoço. Jorge de descontrolou e foi para cima do homem, enquanto Zé tentava puxar seu fuzil.
Ferreira nem teve tempo de levantar a rama de novo. Jorge o agarrou pela cintura. Não teve meia eira. Deu-lhe pancadas na nuca até ele lhe soltar. No entanto Zé estava tremendo, mas de fuzil na mão. Virou-se para atirar em Ferreira, mas este levantou Jorge que estava tonto, e este levou o tiro na cabeça que ia contra o assassino. Zé não suportou ver isso. Não que fosse cabra mole. Mas seu grupo de 13 foi quase todo morto por aquele diabo. Soltou sua arma e correu, quase chegando na saída da mata, quando meteu o pé num buraco, torceu a perna, e caiu.
E, andando devagar e pegando a própria arma de Zé, Ferreira se aproximou do homem, quase louco de dor e medo.
“Arrrrghhhhh, Naaa.... Se.. Se... Sev... Fer...” Gaguejou Zé, quase chorando. Suplicava pela sua vida, enquanto nutria ódio pelo homem. “Não me mata! Não me mata! Tenho família! Mulher e menino!” Se saísse vivo, mataria aquele homem nem que fosse a última coisa que faria na vida. Respirou fundo, e com um misto de medo e resignação começou de novo.
“Vi... Vir... Fer... Fer...” Gaguejou, reunindo sangue frio. Ia lhe dar voz de prisão, veja você! Mas Ferreira estava pouco se lascando para o sangue frio de Zé.
“Seu Ferreira? Não meu filho. Meu nome pra você não é esse não. Virgulino Ferreira eu sou sim...” Disse o homem, com os olhos vermelhos de cólera, e o cão do fuzil puxado.
“Mas pra você, é Lampião!”
Levantou o fuzil e furou a cara do macaco com chumbo.
Lampião catou mais uns dois fuzis e balas, e umas quatro pistolas. Olhou pro macaco que tinha perto de si, e lhe deu um cuspe de nojo. Saiu da mata, e sem nem olhar pra trás, e foi-se com o sol a lhe saudar.
Por: Paulo Teixeira.


2 comentários:
Ficou muito bom! Curti! ;*
Não conheço muito a história do Lampião, mas deu pra ver como ele era temido lendo o conto. Mto bom Paulo, parabéns =)
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